Alcolumbre acusa governo Lula de “interferência indevida” e rebate negociação por cargos na indicação de Messias ao STF
Presidente do Congresso divulga nota dura contra Executivo e classifica insinuações como “ofensivas ao Legislativo”; sabatina do AGU prevista para 10 de dezembro enfrenta resistências e pode ser adiada para 2026

O presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União-AP), elevou o tom contra o governo federal neste domingo e rejeitou com veemência as especulações sobre negociação de cargos em troca de apoio no Congresso. Em nota oficial, o senador denunciou tentativas de associar as divergências políticas a interesses por postos no Executivo, classificando as insinuações como ofensivas ao Poder Legislativo.
A crise aprofundou-se após a indicação do advogado-geral da União (AGU), Jorge Messias, ao Supremo Tribunal Federal (STF). Alcolumbre não foi comunicado previamente da escolha por Lula e já havia demonstrado preferência pelo senador Rodrigo Pacheco (PSD-MG), favorito também da maioria dos parlamentares.
O governo admite internamente que Messias pode sofrer derrota no plenário, onde necessita de 41 votos para aprovação. A sabatina está marcada para 10 de dezembro, prazo considerado apertado demais pelo Planalto para articular os apoios necessários.
AS ACUSAÇÕES E A DEFESA
“É nítida a tentativa de setores do Executivo de criar a falsa impressão, perante a sociedade, de que divergências entre os Poderes são resolvidas por ajuste de interesse fisiológico, com cargos e emendas. Isso é ofensivo não apenas ao Presidente do Congresso Nacional, mas a todo o Poder Legislativo”, declarou Alcolumbre em nota.
O senador também apontou “interferência indevida” no processo, destacando que Lula ainda não enviou ao Senado a mensagem formal com a indicação de Messias. Segundo o Regimento Interno, não é possível realizar a sabatina sem esse documento oficial.
Para o Planalto, a falta de envio da mensagem é estratégica: permitiria adiar a sabatina e ganhar tempo para negociar votos, evitando uma derrota constrangedora. Alcolumbre, porém, vê a manobra como desrespeito à autonomia do Senado.
BASTIDORES E ARTICULAÇÃO
A ministra Gleisi Hoffmann, da Secretaria de Relações Institucionais, manifestou nas redes sociais “o mais alto respeito e reconhecimento” ao presidente do Senado, em tentativa de conter a escalada da crise. A estratégia do governo é buscar acenos aos presidentes das Casas legislativas para distensionar o ambiente.
Nos bastidores, especula-se que uma das possíveis demandas de Alcolumbre seria a presidência do Banco do Brasil, cargo há tempos ambicionado pelo senador. Aliados do parlamentar, contudo, negam categoricamente qualquer negociação por cargos.
O senador Otto Alencar (PSD-BA), presidente da Comissão de Constituição e Justiça (CCJ), confirmou a decepção de Alcolumbre com a escolha de Messias e atribuiu a nota divulgada às notícias sobre suposta negociação de cargos. Alencar admitiu que a sabatina pode ficar para 2026, comparando a situação à indicação de André Mendonça por Jair Bolsonaro, que levou quase cinco meses para ser sabatinado.
O IMPASSE E OS PRÓXIMOS PASSOS
O entorno presidencial reconhece que o aborrecimento de Alcolumbre vai além da preterição de Pacheco. O presidente do Senado também não retornou contatos de Jorge Messias e tem evitado conversas com o líder do governo no Senado, Jaques Wagner (PT-BA).
A interlocução tem sido feita pelos senadores Randolfe Rodrigues (PT-AP) e Otto Alencar. O governo avalia que é necessário mapear as insatisfações de Alcolumbre e seu grupo político — incluindo Eduardo Braga (MDB-AM), Omar Aziz (PSD-AM) e Renan Calheiros (MDB-AL) — para melhorar o ambiente.
A solução do impasse depende de uma conversa direta entre Lula e Alcolumbre, sem previsão de ocorrer. O timing desse encontro será definido pelo esfriamento da crise e pela identificação precisa das insatisfações do Senado, em processo descrito por aliados como uma “cirurgia de muitos pontos”.
Caso o governo não envie a mensagem até 3 de dezembro, Alcolumbre terá de adiar o cronograma. O presidente do Senado reafirmou que a decisão sobre a indicação será “livre, soberana e consciente”, ressaltando que assim como cabe ao presidente indicar ministros ao STF, cabe ao Senado aprovar ou rejeitar os nomes
