Povos indígenas bloqueiam balsas da Cargill no Tapajós em ato de resistência contra Hidrovia Amazônica
Manifestantes interceptam embarcações agrícolas no rio Pará; governo insiste que decreto não privatiza rios, mas indígenas exigem sua revogação total

Na manhã desta quinta-feira (19), cerca de 400 indígenas saíram em quatro embarcações ao encontro de balsas da Cargill que faziam travessia no rio Tapajós, em Santarém (PA). Parte dos manifestantes pulou na água e nadou até as embarcações, onde ergueram faixas de protesto. A Polícia Federal e a Marinha monitoraram a ação.
A líder indígena Auricélia Arapiun deixou claro o recado: “A manifestação é contra o decreto de privatização dos rios. Vamos continuar pressionando o governo para revogar o decreto federal sobre hidrovias.”
O contexto: um mês de ocupação
O ato no rio é o capítulo mais recente de uma mobilização que já dura semanas. Desde 22 de janeiro, representantes de 14 povos indígenas do oeste do Pará ocupam a sede da Cargill em Santarém. O estopim foi o decreto nº 12.600/2025, que incluiu trechos dos rios Tapajós, Madeira e Tocantins no Programa Nacional de Desestatização (PND).
Ao longo do período, os manifestantes bloquearam vias — inclusive o acesso ao aeroporto local — e realizaram reuniões com representantes do governo federal, sem chegar a um acordo.
O que o governo cedeu (e o que não cedeu)
Em 6 de fevereiro, o governo Lula suspendeu a licitação que havia habilitado uma empresa para a dragagem do Tapajós — contrato de R$ 61,8 milhões firmado sem licença ambiental e sem sequer protocolar um pedido ao Ibama. A medida foi assinada pelos ministros Guilherme Boulos, Sílvio Costa Filho e Sônia Guajajara.
O governo também anunciou um grupo de trabalho interministerial com representantes indígenas para discutir processos de consulta prévia. Para os manifestantes, porém, essas concessões são insuficientes.
O Conselho Indígena Tapajós e Arapiuns (Cita) exige três pontos: anulação do pregão, revogação do decreto e publicação dos atos no Diário Oficial. Enquanto apenas o primeiro foi atendido parcialmente, o acampamento e os protestos continuam.
Os riscos ambientais em jogo
Documentos do Ibama, do ICMBio e da Secretaria de Meio Ambiente do Pará apontam impactos “significativos” da dragagem planejada, entre eles alteração da qualidade da água, assoreamento do rio, prejuízo à pesca, risco de insegurança alimentar para comunidades ribeirinhas e perturbação nos ciclos reprodutivos da tartaruga-da-amazônia — numa região que é a segunda maior área de reprodução da espécie no mundo.
Promessas na COP30 ainda sem cumprimento
O tema já havia gerado tensão na COP30, em novembro, em Belém. Na ocasião, as ministras Sônia Guajajara e Marina Silva prometeram que a consulta prévia com as comunidades seria realizada antes de qualquer avanço. Meses depois, a promessa permanece no papel.
O Ministério dos Povos Indígenas reafirmou, em nota recente, que “nenhuma iniciativa relacionada à dragagem ou manutenção hidroviária no Tapajós pode avançar sem o consentimento livre, prévio e informado dos povos”, conforme a Convenção 169 da OIT e a Constituição Federal.
A Cargill, por sua vez, afirmou que respeita o direito à manifestação, cumpre as leis brasileiras e não tem ingerência sobre a pauta apresentada pelos indígenas. A empresa não se pronunciou sobre a interceptação das balsas.
