Gasolina cai 8,33% na refinaria de Manaus após série histórica de altas; veja o que os dados revelam
Relatório oficial da Ream mostra trajetória completa do preço desde dezembro de 2022: de R$ 2,66 no piso até R$ 4,32 no pico — tudo em menos de três anos e meio

Evolução do preço da gasolina na Refinaria da Amazônia (Ream) — Manaus
Preço EXA (sem tributos, à vista, R$/litro) · Dez/2022 a Mar/2026 · Fonte: Relatório oficial Ream/ANP

A redução desta quarta-feira
A Refinaria da Amazônia (Ream) anunciou nesta terça-feira (24) a maior redução percentual registrada em seu relatório oficial desde o início da série histórica analisada. O preço da gasolina vendida às distribuidoras caiu de R$ 4,3240 para R$ 3,9690 por litro — queda de R$ 0,36, ou 8,33% — com vigência a partir desta quarta-feira (25). A nova tarifa consta no relatório da refinaria publicado em conformidade com a Resolução ANP nº 795/2019.
A redução encerra uma sequência de quatro aumentos consecutivos em março de 2026, período em que o preço saltou de R$ 3,2450 (em 3 de março) para o pico histórico de R$ 4,3240 registrado em 21 de março — alta de 33,2% em apenas 18 dias, impulsionada pela escalada dos conflitos no Oriente Médio.
O que a série histórica revela
O relatório oficial entregue pela Ream à ANP permite reconstituir toda a trajetória do preço da gasolina na refinaria desde dezembro de 2022 — e os dados contam uma história de três fases bem distintas.
Fase 1 — Queda e piso histórico (dez/2022 a jul/2023). Após abrir em R$ 3,21 em dezembro de 2022, o preço recuou progressivamente até atingir o menor valor de toda a série: R$ 2,6656 em 30 de junho de 2023. Esse foi o momento mais favorável para o consumidor desde a privatização da refinaria.
Fase 2 — Escalada lenta e seca histórica (ago/2023 a dez/2024). A partir de agosto de 2023, os preços voltaram a subir de forma gradual. O movimento se acelerou a partir de julho de 2024, quando a seca histórica que paralisou os rios do Amazonas forçou o aumento dos custos logísticos e a dependência quase integral de importação. O preço na refinaria subiu de R$ 3,15 em junho de 2024 para R$ 3,93 em novembro do mesmo ano — alta de quase 25% em cinco meses. Em dezembro de 2024, o litro chegou a R$ 3,92.
Fase 3 — Queda parcial e nova disparada (jan/2025 a mar/2026). Ao longo de 2025, a Ream reduziu gradualmente o preço, que chegou ao seu segundo patamar mais baixo da série: R$ 2,8950, registrado em 20 de dezembro de 2025. A aparente estabilidade durou pouco. Em março de 2026, com a guerra no Oriente Médio impulsionando o barril de petróleo de US$ 73 para US$ 110, os preços dispararam em quatro reajustes consecutivos, culminando no pico histórico de R$ 4,3240 em 21 de março — o maior valor já registrado na série.
A explicação da refinaria
Em nota oficial, a Ream reconhece a crise, mas contextualiza os fatores que determinam seus preços. A empresa afirma que compra tanto o petróleo nacional — incluindo o de Urucu, produzido pela Petrobras em Coari — quanto os derivados importados necessários à formulação do combustível final, sempre em dólar e a preços que seguem indicadores internacionais como o tipo Brent.
A refinaria destaca ainda uma limitação estrutural da planta, construída na década de 1950: suas unidades de destilação atmosférica não produzem diretamente gasolina e diesel rodoviário dentro das especificações exigidas pela legislação. Por isso, precisa importar insumos para completar a formulação — o que a torna duplamente exposta à variação cambial e aos preços internacionais.
“Preços em desequilíbrio com o mercado internacional comprometem a operação e a oferta regular ao mercado”, diz a nota, justificando a adoção da paridade de importação como referência para os preços praticados com as distribuidoras.
O que o consumidor sente na bomba
O abismo entre o preço na refinaria e o preço na bomba é o ponto mais sensível do debate. Na capital amazonense, o valor da gasolina chegou a R$ 7,59 por litro no último sábado (21), enquanto se aproxima dos R$ 9 no interior. Em municípios mais distantes, o litro já bate em R$ 10.
O histórico disponível no próprio relatório da Ream mostra que, mesmo quando a refinaria reduziu progressivamente o preço ao longo de 2025 — de R$ 3,92 em dezembro de 2024 para R$ 2,89 em dezembro de 2025 —, a gasolina continuou acima de R$ 7 nos postos, mantendo Manaus entre as cidades com combustível mais caro do país.
Essa defasagem tem nome: impostos, margens de distribuidoras e postos, custos logísticos e, sobretudo, o ICMS estadual. Em fevereiro de 2025, o aumento da alíquota do ICMS sobre a gasolina, determinado pelo Confaz, elevou o imposto em R$ 0,10 por litro — passando de R$ 1,37 para R$ 1,47.
O que esperar agora
A redução de R$ 0,36 anunciada hoje é a mais expressiva da série histórica em termos percentuais. Se as distribuidoras repassarem integralmente o corte, o motorista pode ver algum alívio nos próximos dias — mas os dados dos últimos três anos mostram que esse repasse raramente é imediato ou integral.
O relatório da Ream revela ainda uma assimetria estrutural: as quedas de preço na refinaria tendem a ser graduais e espalhadas por semanas ou meses; as altas, como as de março de 2026, ocorrem em saltos rápidos. Enquanto esse padrão persistir, Manaus continuará convivendo com um dos combustíveis mais caros do Brasil.
*Reportagem produzida em 25 de março de 2026 com base no relatório oficial de preços da Refinaria da Amazônia (Ream/ANP), nota de esclarecimento da empresa e dados de campo coletados em Manaus.
