PRAÇA 14 DE JANEIRO: 142 ANOS DE HISTÓRIA, FÉ E SAMBA NO CORAÇÃO DE MANAUS
Bairro tradicional da zona Sul celebra mais um aniversário como berço da cultura afro-brasileira e do samba na capital amazonense

Hoje, o bairro Praça 14 de Janeiro, na zona Sul de Manaus, completa 142 anos de história. Mais do que uma data no calendário, este é um marco de resistência, tradição e identidade cultural que moldou profundamente a face de Manaus. Entre becos, vielas e o som inconfundível dos tambores, a Praça 14 respira memória viva de um povo que transformou suas raízes em patrimônio.
Das Raízes Políticas ao Berço do Samba
A história do bairro está intrinsecamente ligada à Revolta de 14 de janeiro de 1892, um conflito armado motivado por disputas políticas entre os partidos Democrático e Nacional, que culminou na deposição do Governador Gregório Thaumaturgo de Azevedo. O confronto, que resultou na morte do soldado João Fernandes Pimenta, deixou marcas não apenas na política local, mas também deu origem ao nome que hoje identifica um dos bairros mais tradicionais da capital.
No período em que o bairro surgiu, final do século XIX, Manaus começou a receber um contingente de trabalhadores oriundos do Maranhão – terra natal do então Governador Eduardo Ribeiro – em sua maioria ex-escravos, para atuar nas grandes obras de melhoramento urbano. Esses trabalhadores, vindos especialmente de cidades como Alcântara, trouxeram consigo uma herança cultural africana que se tornaria a essência do bairro.
Ao longo de sua história, o local teve diferentes denominações: Praça da Conciliação, Praça Fernandes Pimenta, Praça Dr. Pedrosa e até Praça Portugal. Mas foi o nome Praça 14 de Janeiro que resistiu ao tempo e à vontade das autoridades, mantido pela força da população que ali se estabeleceu.
O Santuário de Fátima: Devoção que Constrói Identidade
Erguendo-se majestosamente sobre o platô do bairro, o Santuário de Fátima foi idealizado no dia 13 de maio de 1939, com a celebração de uma missa campal e a construção de uma igrejinha de madeira. A obra, iniciada em 1942 com o lançamento da pedra fundamental, só foi concluída décadas depois, em 1975, tornando-se um dos principais símbolos religiosos não apenas do bairro, mas de toda Manaus.
A presença portuguesa se faz presente pela forte devoção a Nossa Senhora de Fátima, cujos registros mais antigos datam da década de 1930. O templo, com sua arquitetura imponente inspirada em grandes obras renascentistas, é hoje ponto de peregrinação para fiéis de toda a cidade, que comparecem às novenas mensais e às celebrações especiais.
Curiosamente, antes da devoção mariana se consolidar, migrantes maranhenses vieram habitar aquela região devotando fé a São Benedito, porém a construção do templo em honra de Nossa Senhora de Fátima colocou São Benedito em outro plano. Ainda assim, a devoção ao santo padroeiro dos negros permanece viva e forte no Quilombo do Barranco de São Benedito.

Igreja São José Operário: Fé e Trabalho na Praça 14
Outro importante templo religioso do bairro é o Santuário São José Operário. A Paróquia sob a proteção de São José Operário teve sua criação no dia 5 de fevereiro de 1948, originando-se do trabalho do padre Estevão Domitrovitsch junto com um grupo de jovens do Seminário Diocesano São José.
A construção da sede paroquial foi iniciada em 4 de junho de 1949, envolvendo leigos da comunidade e autoridades públicas. O santuário, localizado na Avenida Visconde de Porto Alegre, é administrado pelos Salesianos de Dom Bosco e celebrou 75 anos de existência em 2023.
A igreja tornou-se referência especialmente pela Novena de São José, realizada todo dia 19 de cada mês desde 1999, reunindo fiéis de todas as zonas geográficas de Manaus para agradecer as graças recebidas por intercessão do padroeiro dos trabalhadores.

Vitória Régia: O Verde e Rosa que Embala a Praça 14
Falar da Praça 14 é, inevitavelmente, falar da Escola de Samba Vitória Régia. O Grêmio Recreativo Escola de Samba (G.R.E.S) Vitória Régia foi fundado em 1º de dezembro de 1975, na casa de Raimunda Dolores Gonçalves, a Tia Lindoca, que junto com Nedson Pires de Medeiros (Neném), Roberto Cambola e Darcy Sérgio de Souza (Barriga), assinaram a ata de fundação.
A agremiação adotou as cores verde e rosa, tendo como madrinha a lendária Estação Primeira de Mangueira, do Rio de Janeiro. Desde sua fundação, a Vitória Régia nunca deixou de desfilar, consolidando-se como a escola de samba mais antiga de Manaus ainda em atividade.
Mas o samba na Praça 14 vem de antes. Foi no bairro que surgiu a primeira escola de samba de Manaus, a Escola Mixta de Samba da Praça 14 de Janeiro, que existiu entre 1946 e 1962. Com pavilhão nas cores amarelo, preto e vermelho, a Mixta era formada por negros, caboclos e descendentes de portugueses, refletindo a diversidade étnica do bairro.
Entre suas figuras marcantes estava Tia Lurdinha, famosa baiana e quituteira que desfilou por quase 30 anos pela escola e que, segundo recordações, sempre cantava um samba de protesto da década de 1950, de autoria de Zé Ruindade: “Não é direito / Não é legal / Mudar o nome de Praça 14 / Para Praça Portugal”.
Pelos Becos e Vielas: A Geografia da Resistência
Caminhar pela Praça 14 é mergulhar em uma trama urbana que conta histórias a cada esquina. O bairro ocupa aproximadamente 1,2 quilômetros quadrados, limitado pela avenida Sete de Setembro ao sul, Boulevard Álvaro Maia ao norte, igarapé da Cachoeirinha a leste e avenida Joaquim Nabuco a oeste.
Suas ruas e vielas guardam nomes que remetem à história brasileira: Rua Visconde de Porto Alegre, Rua Jonathas Pedrosa, Rua Emílio Moreira. Entre becos estreitos e casas antigas, a vida pulsa com o movimento do comércio local, dominado historicamente por imigrantes portugueses, mas mantendo forte a presença e influência da comunidade negra.
As primeiras melhorias na paisagem urbana da Praça 14, incluindo asfaltamento de ruas, luz elétrica, postos médicos, maternidade, postos policiais, escolas e feiras, surgiram entre as décadas de 1950 e 1960.
Hoje, o bairro também se destaca como importante centro comercial, especialmente na Avenida Tarumã, que concentra centenas de lojas de revenda de carros e acessórios automobilísticos, tornando-se referência no setor automotivo de Manaus.

Quilombo do Barranco de São Benedito: Memória Viva da Resistência Negra
O Quilombo do Barranco de São Benedito, localizado na Praça 14, é uma comunidade formada por pessoas que tiveram antepassados escravizados em fazendas coloniais e foi certificado em 2014 pela Fundação Cultural Palmares como o segundo quilombo urbano do Brasil.
Esta comunidade centenária mantém vivas as tradições culturais e religiosas afro-brasileiras, realizando eventos como o “Samba de Mulher” e os festejos a São Benedito. Moradores como Deusdeth Fonseca Lima, de 88 anos, carinhosamente chamada de Tia Deca, personificam essa resistência: filha de pais maranhenses descendentes de escravos, ela nasceu, cresceu e envelhece na Praça 14, orgulhosa de sua história e de suas raízes.
A Tradição dos Pretos: Identidade e Orgulho**
A expressão “pretos” no contexto da Praça 14 transcende a simples identificação racial e representa um posicionamento político e cultural de orgulho das raízes africanas. “Sou preto e com orgulho!”, destaca moradores que veem no bairro um importante elo com suas raízes e história.
Historicamente, a Praça 14 desempenhou papel fundamental na formação cultural de Manaus, sendo berço não apenas do samba, mas também de manifestações como o boi-bumbá. O Boi Caprichoso de Manaus, fundado em 14 de janeiro de 1913 por maranhenses residentes no bairro, com seu couro branco e coração preto na testa, tornou-se figura central nas festividades locais antes de um dos irmãos fundadores descer o Rio Amazonas e fundar o Caprichoso de Parintins.
O bairro também abriga outras manifestações culturais afro-brasileiras como a Ciranda da Viscondessa, a Tribo dos Andiras, a Dança do Tipiti, além de preservar figuras essenciais como rezadeiras e parteiras, guardiãs de saberes ancestrais.
Um Patrimônio que Pulsa
Com população estimada em mais de 14 mil habitantes, a Praça 14 de Janeiro permanece como símbolo de resistência cultural em Manaus. Suas escolas, como Plácido Serrano, Primeiro de Maio e Luizinha Nascimento, formam gerações que carregam o orgulho de pertencer a este território.
O bairro também sedia importantes instituições públicas, como a Procuradoria Geral do Estado (PGE) e o Tribunal Regional do Trabalho (TRT-AM), além de abrigar o barracão da Escola de Samba Meninos Levados, reforçando seu papel como centro cultural, educacional e administrativo.
Neste 14 de janeiro de 2026, enquanto o batuque ecoa pelas ruas e os fiéis se reúnem no Santuário de Fátima, a Praça 14 de Janeiro celebra não apenas 142 anos de existência, mas séculos de herança africana, de luta por dignidade e de preservação de uma identidade cultural que é, ao mesmo tempo, manauara, brasileira e universal.
Do alto da igreja de Nossa Senhora de Fátima ao chão batido onde nasceu o samba de Manaus, das orações matinais às rodas de conversa nos becos ao entardecer, a Praça 14 continua sendo o que sempre foi: coração pulsante da cultura negra no Amazonas, território de memória, fé e resistência.
“Onde o batuqueiro bate forte de janeiro a janeiro” – como diz o refrão do samba de concentração da Vitória Régia – a Praça 14 segue firme, celebrando suas tradições e renovando seu compromisso com as gerações futuras de manter viva a chama da cultura que a fez nascer e que continua a fazer dela um dos bairros mais queridos e respeitados de Manaus.
Praça 14 e Bar Caldeira em festa
Dois tradicionais redutos do samba em Manaus fazem uma grande festa nesta quarta-feira (14/01) para comemorar as datas de suas fundações. Os 142 anos do bairro Praça 14 serão celebrados a partir das 19h em frente à quadra da Escola de Samba Vitória Régia. No Bar Caldeira, Patrimônio Cultural e Imaterial do estado, os 63 anos do estabelecimento são festejados a partir das 17h com extensa programação.(Portal Único)
