Abandono bilionário: Amazonas acumula mais de 430 obras paralisadas e R$ 1,3 bi parados
Estado registra quase 440 projetos federais travados enquanto população convive com hospitais fechados, passarelas derrubadas e promessas que viraram ruínas

O Amazonas virou um cemitério de obras inacabadas. São 438 projetos públicos paralisados que receberam recursos federais, segundo dados atualizados do Tribunal de Contas da União (TCU). O levantamento expõe um cenário de desperdício monumental: R$ 1,3 bilhão em investimentos travados e R$ 439,5 milhões já jogados em estruturas que seguem sem funcionar.
Do total de 734 empreendimentos financiados pela União no estado, mais da metade virou sinônimo de promessa quebrada. Hospitais prontos, mas fechados. Parques anunciados com pompa, mas abandonados. Obras de saneamento que viraram crateras na rotina dos moradores.
Da Passarela ao Perigo: O Caos na Torquato Tapajós
A Avenida Torquato Tapajós, uma das mais movimentadas de Manaus, virou cenário de risco diário. Em julho de 2024, uma carreta derrubou a passarela que facilitava a travessia de pedestres. Um ano depois, nada de reconstrução.
A Prefeitura promete arcar com as obras porque a seguradora se recusou a pagar — o caso está na Justiça e a estrutura, no limbo. Enquanto isso, quem precisa atravessar disputa espaço com carros em alta velocidade, dependendo apenas de um semáforo. Moradores relatam medo constante. O abandono aqui não é só estrutural, é também humano.
Promessas Verdes Viraram Concreto Abandonado
O Parque Encontro das Águas Rosa Almeida, vendido como cartão-postal turístico e área de lazer, continua no papel — ou melhor, em obras paradas. A promessa era antiga, o início dos trabalhos foi divulgado, mas a entrega nunca chegou.
Na Zona Centro-Sul, a situação se repete com contornos ainda mais irônicos: a nova sede da Secretaria Municipal de Meio Ambiente, que seria construída dentro do Parque Ponte dos Bilhares, está abandonada. Anunciada em 2023, a obra gerou polêmica por ocupar área de preservação ambiental. Hoje, vigas expostas e estruturas inacabadas são o retrato do descaso em plena área verde.
Hospital do Sangue: Pronto, Mas Inútil
Em outubro de 2022, o governador Wilson Lima garantiu em entrevista que o Hospital do Sangue, ligado ao Hemoam, estava “pronto”. Faltariam apenas móveis e equipamentos. Mais de dois anos depois, a unidade segue sem atender um único paciente.
O hospital, financiado com recursos federais, permanece fechado enquanto pacientes que precisam de atendimento especializado seguem sem acesso ao serviço. É o tipo de abandono que custa vidas, não só dinheiro.
Casa da Mulher Brasileira: Acolhimento que Não Chegou
No bairro Petrópolis, a Casa da Mulher Brasileira deveria ser refúgio e apoio para vítimas de violência. Com recursos federais garantidos, a obra prometia atendimento humanizado e estrutura adequada. Desde 2023, porém, está paralisada.
Enquanto o prédio apodrece inacabado, mulheres em situação de vulnerabilidade seguem sem o suporte que já deveria estar funcionando. Mais uma promessa federal que virou abandono estadual.
Saneamento Parado, Lama e Risco no Parque Mauá
Na Zona Leste, o bairro Parque Mauá virou exemplo do caos causado por obras de saneamento que simplesmente pararam. Desde outubro de 2024, moradores convivem com buracos, lama, montanhas de sujeira e risco constante de acidentes.
A obra, que deveria melhorar a infraestrutura local, virou pesadelo. Crianças, idosos e trabalhadores precisam desviar de crateras e enfrentar condições precárias todos os dias. O abandono aqui é literal e cotidiano.
A Raiz do Problema: Falta de Planejamento e Fiscalização Zero
O especialista em gestão pública Lúcio Carril é direto ao apontar as causas: falta de planejamento, fiscalização frouxa e desrespeito à legislação orçamentária.
“Obra inacabada ou que demora demais é sintoma de planejamento inexistente. Temos Lei Orçamentária, Lei de Diretrizes Orçamentárias — ferramentas que deveriam guiar todo o processo. Gestão pública é planejar, executar e entregar o serviço. O que vemos aqui é o contrário disso”, afirma Carril.
O diagnóstico é claro: o problema não é apenas técnico, é de responsabilidade política.
O Silêncio dos Gestores
Procuradas pela reportagem da Rede Amazônica de Rádio e TV, a Secretaria Municipal de Infraestrutura (Seminf) não respondeu até o fechamento desta matéria.
Já a Secretaria de Estado de Infraestrutura (Seinfra) enviou nota genérica afirmando que entre 2019 e 2025 foram concluídas 734 obras no Amazonas, com outras 148 em andamento. Sobre a Casa da Mulher Brasileira e o Hospital do Sangue, porém, nenhuma palavra. O silêncio também é uma resposta — e uma das mais reveladoras.
Reportagem produzida com base em dados do TCU e informações da Rede Amazônica de Rádio e TV
