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Amazonas

Complexo Rei Pelé apresenta vazamento em trincheira menos de um ano após inauguração: questões sobre impactos ambientais e estruturais permanecem sem esclarecimento

Um vazamento de água registrado no Complexo Viário Rei Pelé, na Zona Leste de Manaus, levanta questionamentos que vão além da integridade estrutural da obra. Vídeos documentam água escorrendo por fissuras na trincheira e invadindo a pista no sentido Cidade Nova/T4, com formação de poças e acúmulo de lama.

O complexo, inaugurado em 26 de junho de 2025 após quatro adiamentos e investimento de R$ 80,8 milhões em recursos estaduais e municipais, agora enfrenta seu primeiro teste de durabilidade — e possivelmente questões mais profundas sobre seu planejamento.

Localização sensível exige esclarecimentos

Um aspecto que merece atenção especial é a localização do empreendimento. A obra está situada em área que corresponde à cabeceira do Igarapé do 40, região naturalmente propensa a acúmulo hídrico e com dinâmica hidrológica delicada.

Permanece sem esclarecimento público se estudos hidrológicos adequados foram realizados antes da implantação, considerando:

– O comportamento das águas subterrâneas e superficiais na cabeceira do igarapé

– O impacto da impermeabilização do solo sobre o escoamento natural

– Possíveis alterações no lençol freático causadas pelas fundações profundas

– Sistema de drenagem projetado para lidar com as características hídricas locais

Vazamento: sintoma ou causa?

Embora a Prefeitura de Manaus tenha informado que notificou a empresa responsável e garantido não haver risco estrutural — com a obra ainda dentro do prazo de garantia —, algumas questões permanecem:

Seria o vazamento resultado de falha construtiva ou evidência de que as condições hidrológicas do local não foram adequadamente consideradas no projeto?**

A proximidade com a cabeceira do Igarapé do 40 sugere que pode haver pressão hídrica natural atuando sobre a estrutura subterrânea da trincheira. Se esse fator não foi devidamente incorporado ao projeto de engenharia, os reparos podem ser paliativos, sem resolver a causa fundamental.

Possíveis impactos à população

Além das preocupações estruturais manifestadas por moradores nas redes sociais, há potenciais riscos que merecem investigação:

Segurança viária: A presença contínua de água e lama na pista representa risco de acidentes, especialmente em dias chuvosos quando o problema pode se agravar.

Drenagem urbana: Se o complexo alterou o fluxo natural das águas sem compensações adequadas, pode estar contribuindo para alagamentos em áreas adjacentes ou a jusante do Igarapé do 40.

Impacto ambiental: A modificação de uma cabeceira de igarapé pode afetar todo o sistema hídrico local, com consequências ainda não mensuradas para o ecossistema urbano.

Durabilidade da obra: Se há incompatibilidade entre a estrutura e as condições hidrológicas locais, problemas podem se repetir ou agravar, exigindo manutenções constantes com dinheiro público.

 Transparência necessária

A reportagem da Rede Amazônica verificou que, apesar dos reparos iniciados, ainda persistem pontos com vazamento — o que reforça a necessidade de esclarecimentos sobre:

1. Quais estudos ambientais e hidrológicos precederam o projeto?

2. Como foi tratada a questão da cabeceira do Igarapé do 40 no planejamento?

3. O sistema de drenagem foi dimensionado considerando as características específicas do local?

4. Há monitoramento do lençol freático e das águas superficiais desde a implantação?

A obra de R$ 80,8 milhões, que inclui túnel, viaduto, playground, pista de skate, quadras esportivas e áreas de lazer, certamente representa investimento significativo para a mobilidade urbana. No entanto, a população merece saber se esse investimento foi precedido de análises técnicas que consideraram adequadamente as particularidades ambientais da região.

Invocar o benefício da dúvida não significa presumir negligência, mas exigir transparência: os gestores públicos têm o dever de demonstrar que decisões técnicas foram tomadas com base em estudos sólidos, especialmente quando envolvem intervenções em áreas ambientalmente sensíveis como cabeceiras de igarapés.

Enquanto essas respostas não vierem, o vazamento no Complexo Rei Pelé permanece como sintoma de questões potencialmente mais amplas sobre planejamento urbano, respeito às condições ambientais locais e uso responsável de recursos públicos.

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