O TETO DE VIDRO NA ADMINISTRAÇÃO PÚBLICA BRASILEIRA
Por que as mulheres ainda não alcançam os postos de destaque no setor público?

Reportagem especial • Março de 2026
Elas são maioria na população, têm mais escolaridade, ingressam em maior número no serviço público — e mesmo assim ocupam menos de 40% dos cargos de alta liderança no governo federal. A sub-representação feminina nas instituições públicas brasileiras revela um paradoxo perturbador: quanto mais alto o cargo, menor a presença das mulheres. Esta reportagem investiga as causas estruturais desse fenômeno, os dados que o comprovam e o que pode ser feito para mudar esse cenário.
1. O QUE DIZEM OS NÚMEROS
Em janeiro de 2025, as mulheres correspondiam a 45,6% dos servidores federais ativos — um total de 261,4 mil profissionais. Poderiam representar metade do poder de decisão do país. No entanto, quando se analisa a distribuição por nível hierárquico, o quadro muda drasticamente.
Segundo dados do Observatório de Pessoal do Ministério da Gestão e Inovação em Serviços Públicos (MGI), as mulheres ocuparam apenas 38% dos postos de alta liderança no Executivo Federal em 2023. Quando se observa os cargos de Natureza Especial — como secretárias executivas e subchefias —, a presença feminina despenca para 27%. Nos cargos DAS-6, que incluem secretárias nacionais e presidentes de autarquias, as mulheres são apenas 32%.
O padrão se repete nas esferas subnacionais: nos governos estaduais e nas capitais brasileiras, somente 28% dos cargos de secretário(a) são ocupados por mulheres, segundo o primeiro Censo das Secretárias (2024). Apenas uma capital — Natal — e três estados atingiram a paridade de gênero nesse período.
Na política, a situação é ainda mais alarmante. O Brasil ocupa a 133ª posição global em representação feminina na política — o último lugar entre os países da América Latina. No Congresso Nacional, as mulheres representam menos de 20% dos parlamentares, enquanto nos cargos executivos municipais e estaduais a ocupação feminina é de apenas 12% e 7,4%, respectivamente.
DADOS-CHAVE
• 45,6% das servidoras federais ativas são mulheres (2025)
• Apenas 38% dos cargos de alta liderança são ocupados por mulheres
• Cargos de Natureza Especial: apenas 27% são mulheres
• Brasil: 133º lugar global e último na América Latina em representação política feminina
• Mulheres com pós-graduação na AP Federal: saltaram de 30,2% (2014) para 54,2% (2022)
• Mulheres negras: apenas 15% dos cargos de média e alta liderança (2024)
2. O PARADOXO DA QUALIFICAÇÃO
Há um paradoxo central nesse cenário: as mulheres são mais escolarizadas, mas menos promovidas. A proporção de servidoras federais com pós-graduação mais do que dobrou em uma década, de 30,2% em 2014 para 54,2% em 2022. No Concurso Público Nacional Unificado (CPNU), realizado em 2024, as mulheres representaram 56,2% das inscrições confirmadas.
Esse esforço de qualificação, no entanto, ainda não se converteu em ascensão proporcional nos cargos de chefia. O dado revela que as barreiras enfrentadas pelas mulheres não são de competência ou preparo técnico — são estruturais, culturais e políticas.
A pesquisadora Michelle Fernandez, da Universidade de Brasília (UnB), coordenou um estudo que ouviu 70 servidoras públicas em cargos de chefia na esfera federal. As conclusões apontam que, além das questões técnicas, pesam fortemente os fatores de gênero e raça. Para ela, a representação feminina importa não apenas por uma questão simbólica, mas porque interfere diretamente na qualidade das políticas públicas para toda a sociedade.
3. AS BARREIRAS INVISÍVEIS: O “TETO DE VIDRO”
O conceito de “teto de vidro” define as barreiras invisíveis, mas reais, que impedem a ascensão de mulheres a posições de liderança e decisão, apesar de suas qualificações e competências. Na administração pública brasileira, esse fenômeno se manifesta de múltiplas formas.
Estereótipos e preconceitos de gênero
Mulheres em posições de autoridade ainda enfrentam questionamentos sobre sua capacidade de liderança que homens em situações equivalentes não sofrem. Servidoras entrevistadas pela UnB relatam uma “tentativa recorrente de descrédito” de sua atuação profissional. Esse ambiente hostil mina a autoestima, aumenta o adoecimento e afasta mulheres das disputas por promoção.
Tripla jornada e responsabilidades de cuidado
A divisão desigual das tarefas domésticas e de cuidado — com filhos, idosos e pessoas com deficiência — continua recaindo desproporcionalmente sobre as mulheres. Cargos de alta liderança exigem disponibilidade ampla de tempo e mobilidade, condições que muitas vezes conflitam com as responsabilidades familiares impostas socialmente às mulheres.
A lógica política de indicação
Na administração pública, muitos cargos de liderança são parte de negociações políticas. Como as mulheres estão sub-representadas nas estruturas internas dos partidos políticos, ficam também fora dessas negociações de poder. A pesquisadora Michelle Fernandez aponta que “se não temos mulheres nas estruturas dos partidos, elas ficarão fora também desses espaços”.
Concentração nas áreas sociais
As mulheres estão mais presentes em pastas consideradas “sociais”, como saúde, educação e assistência social, enquanto setores estratégicos como infraestrutura, economia e segurança pública são dominados por homens. Essa concentração reforça estereótipos de gênero e tem impacto econômico direto, já que as áreas sociais são historicamente menos valorizadas e remuneram pior.
4. A DUPLA OPRESSÃO: GÊNERO E RAÇA
A sub-representação se aprofunda quando se cruza gênero com raça. Em 2024, mulheres negras ocupavam apenas 15% dos cargos de média e alta liderança no governo federal, apesar de pretos e pardos serem maioria da população brasileira.
Nos cargos de Natureza Especial, apenas 8% são mulheres pretas e pardas, contra 17% de mulheres brancas e 63% de homens brancos. Esse dado ilustra como o acesso ao poder no Brasil ainda é moldado pela combinação de machismo e racismo.
A pesquisadora Marcela Corrêa resume: “Uma mulher negra vive o que chamamos de dupla opressão: além das questões do sexismo, tem o racismo. Essa ausência de mulheres negras nos altos postos aponta para as desigualdades que existem e dificultam o acesso e a ascensão.”
5. O QUE DIZ O DIAGNÓSTICO OFICIAL
Uma auditoria do Tribunal de Contas da União (TCU), realizada em 2024 com a participação de tribunais de contas estaduais, confirmou que as políticas e práticas para promover a ascensão feminina em cargos de liderança na Administração Pública Federal “ainda são imaturas”. O relatório apontou que muitos órgãos não possuem programas de capacitação e estruturas formais para promover a igualdade de gênero.
O ministro relator Aroldo Cedraz destacou: “Há esforços pontuais e avanços ainda incipientes na institucionalização de práticas voltadas a incentivar e promover a participação feminina nos cargos de alta liderança da administração pública federal, que continua marcadamente desigual.”
Além disso, o relatório revelou um dado preocupante: apesar do percentual de servidoras ter aumentado entre 2008 e 2024, a ocupação feminina em cargos de alta liderança caiu de 44,2% para 41,5% nesse período. Ou seja, mais mulheres entraram no serviço público, mas proporcionalmente perderam espaço no topo da hierarquia.
6. O QUE ESTÁ SENDO FEITO
O governo federal, a partir de 2023, adotou uma série de iniciativas para reverter esse quadro. O Decreto 11.443/2023 determinou que pelo menos 30% dos cargos em comissão e funções de confiança na administração pública federal sejam preenchidos por pessoas negras. No caso dos cargos de direção e assessoramento criados pelo atual governo, 76% foram ocupados por mulheres.
Outras medidas incluem: o Programa Federal de Prevenção e Enfrentamento do Assédio e da Discriminação (2024); o Guia Lilás da CGU para orientação em casos de assédio; a ampliação de cursos de liderança feminina pela Escola Nacional de Administração Pública (Enap); e a criação do Observatório de Pessoal, que permite o monitoramento público da representação de gênero no serviço público.
Para especialistas, no entanto, as mudanças ainda são insuficientes. O Movimento Pessoas à Frente, organização que promove a diversidade na gestão pública, divulgou em novembro de 2024 um guia com recomendações para acesso, ascensão e permanência de mulheres no serviço público, construído de forma colaborativa com 80 especialistas.
7. O QUE PRECISA MUDAR: RECOMENDAÇÕES
A partir das conclusões de pesquisadores e de servidoras ouvidas em campo, emergiram propostas concretas para avançar na equidade de gênero na administração pública:
• Políticas afirmativas com reserva de metade dos cargos de liderança para mulheres (citada por 51,4% das servidoras entrevistadas).
• Ampliação da oferta de capacitação e mentoria entre mulheres líderes (42,8%).
• Institucionalização de políticas de cuidado para inclusão de mães e gestantes (28,5%).
• Criação de cursos de letramento de gênero e raça para todos os funcionários públicos, com módulos obrigatórios para lideranças.
• Transparência nos processos de nomeação para cargos comissionados.
• Combate estrutural ao assédio moral e sexual no ambiente de trabalho público.
• Maior representação feminina nas estruturas internas dos partidos políticos.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
O teto de vidro na administração pública brasileira não é um problema marginal — é uma falha estrutural que compromete a qualidade da democracia e das políticas públicas. Um Estado que não reflete a diversidade de sua população nas instâncias de poder tende a produzir políticas públicas menos justas e eficazes para todos.
Os dados são incontroversos: as mulheres têm mais escolaridade, entram em maior número no serviço público, são qualificadas e competentes. O que as impede de chegar ao topo não é mérito, mas um conjunto de barreiras estruturais, culturais e políticas que precisam ser desmontadas com determinação, dados e políticas afirmativas.
O Brasil ainda está no início dessa jornada. Os avanços recentes são reais, mas insuficientes diante da profundidade do problema. Mudar esse quadro exige mais do que boas intenções: exige legislação robusta, fiscalização efetiva e, principalmente, uma transformação cultural dentro das instituições públicas brasileiras.
FONTES CONSULTADAS
• Tribunal de Contas da União (TCU) – Relatório de Fiscalização sobre Igualdade de Gênero na Administração Pública Federal, 2024.
• Ministério da Gestão e Inovação em Serviços Públicos (MGI) – Observatório de Pessoal, dados de janeiro de 2025.
• Movimento Pessoas à Frente – “Desigualdade de Gênero em Cargos de Liderança no Executivo Federal”, 2024.
• UnB/Enap – “Mulheres em cargos de liderança na burocracia federal”, coord. Michelle Fernandez, 2024.
• Institutos Aleias, Alziras, Foz e Travessia – Censo das Secretárias, 2024.
• Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) – Ranking de participação feminina na liderança, 2022.
• Agência Brasil / Agência Gov – Notícias e dados oficiais, 2023-2025.
