BRASIL ENCARA O JAPÃO DE PEITO ABERTO E AMAZÔNIA INTEIRA PARA O JOGO
De Manaus a Belém, passando por Boa Vista, Porto Velho e Santarém, o Norte do país se veste de verde e amarelo para empurrar a Seleção rumo às oitavas — em Manaus, ponto facultativo, Ruas da Copa lotadas e Bate Palma fervendo de vendas

Ilustração especial: Brasil x Japão, Copa do Mundo 2026
A contagem regressiva começou. Nesta segunda-feira (29/6), às 13h no horário de Manaus (14h em Brasília), o Brasil entra em campo contra o Japão, no NRG Stadium, em Houston, no Texas, na primeira fase do mata-mata da Copa do Mundo de 2026 — etapa inédita, criada depois que o Mundial passou a ter 48 seleções. Quem vencer carimba passagem para as oitavas de final, marcadas para o dia 5 de julho, em Nova Jersey.
E se tem uma coisa que ninguém duvida é que o jogo vai parar o Amazonas. Literalmente: o Governo do Estado já decretou ponto facultativo nas repartições públicas estaduais para a segunda-feira, e o feriadão começou ainda mais cedo, com a abertura do Festival de Parintins levando ponto facultativo também à sexta-feira (26). No total, são quatro dias seguidos de festa entre o folclore parintinense e o futebol — uma combinação que só a Amazônia sabe fazer tão bem.
O caminho do hexa passa por Houston
O Brasil chega embalado. Depois de um empate inicial contra o Marrocos (1 a 1), a equipe de Carlo Ancelotti vem de duas vitórias seguras — 3 a 0 sobre o Haiti e 3 a 0 sobre a Escócia — que garantiram a liderança do Grupo C com sete pontos. O time venceu quatro de seus últimos cinco jogos, com um empate, e chega a esta partida com um momentum real.
Já o Japão avançou na segunda posição do Grupo F, atrás dos Países Baixos, depois de um empate por 1 a 1 com a Suécia. No retrospecto histórico entre as seleções, a vantagem é amplamente brasileira: 14 confrontos, 11 vitórias do Brasil, dois empates e apenas uma vitória japonesa — justamente a mais recente, em amistoso de 2025, quando os japoneses surpreenderam por 3 a 2.
A concentração e a véspera do jogo
A logística da delegação brasileira em Houston segue o roteiro de sempre: discrição e foco. No domingo, a Seleção treinou pela manhã no estádio do Houston Dynamo, longe dos olhares, e à tarde Ancelotti e um jogador (ainda a ser definido) cumpriram a entrevista coletiva obrigatória no próprio NRG Stadium, palco da decisão.
Quanto ao clima em Houston, quem for torcer por lá — ou simplesmente acompanhar pela TV imaginando o cenário — vai encontrar uma tarde de calor típico do Texas em pleno verão americano: temperaturas girando em torno de 34°C, com chance de chuva isolada por volta de 45% ao longo do dia, o que é normal para a região nesta época do ano.
Escalação: Ancelotti ainda não bateu o martelo
Até a fase final dos preparativos, Ancelotti não confirmou a equipe titular, e não há lesões ou suspensões registradas no grupo brasileiro — boa notícia, especialmente com o retorno de Neymar, que voltou ao banco após boa atuação como substituto contra a Escócia e é opção real para o italiano. A provável escalação que circula é:
Brasil: Alisson; Danilo, Marquinhos, Gabriel Magalhães e Douglas Santos; Casemiro, Bruno Guimarães e Lucas Paquetá; Rayan, Matheus Cunha e Vinicius Júnior.
Do lado japonês, o técnico Hajime Moriyasu também mantém o mistério, mas a base é:
Japão: Zion Suzuki; Hiroki Ito, Shogo Taniguchi e Tsuyoshi Watanabe; Ritsu Doan, Daichi Kamada, Keito Nakamura, Kaishu Sano e Daizen Maeda; Junya Ito e Ayase Ueda.
A expectativa de analistas é de um jogo de xadrez tático: o Japão tem identidade tática baseada em compactação defensiva que se transforma rapidamente em ataques fluidos e velozes, com criadores que exploram os espaços deixados por laterais adversários mais ofensivos — o que exige atenção redobrada da defesa brasileira, especialmente se os laterais de Ancelotti se lançarem ao ataque com liberdade.
Manaus para o jogo: a cidade que não vai trabalhar (e vai fazer a festa)
É aqui que a reportagem do Zona Franca quer colocar a lupa: como Manaus, capital que respira futebol como poucas no Brasil, está se preparando para essa segunda-feira histórica.
Ponto facultativo confirmado
O decreto do Governo do Amazonas é claro: expediente suspenso nas repartições estaduais na segunda-feira (29), com exceção dos serviços essenciais — saúde, segurança pública e atendimentos indispensáveis à população continuam funcionando normalmente. Some-se a isso o ponto facultativo de sexta-feira, em razão da abertura do Festival de Parintins, e o resultado é um feriadão de quatro dias consecutivos para o servidor amazonense — coincidência rara que já está sendo chamada de “o feriadão do boi com o futebol”.
Importante reforçar: a iniciativa privada não tem obrigatoriedade nenhuma de liberar funcionários, já que segunda-feira não é feriado nacional. Cada empresa decide por conta própria se ajusta horários para o jogo — mas a tendência, como em toda Copa, é de comércio e empresas flexibilizarem o expediente no horário da bola rolando.
As Ruas da Copa: a marca registrada de Manaus
Se tem um símbolo que representa o jeito amazonense de viver Copa do Mundo, são as Ruas da Copa — tradição tão forte que já foi reconhecida como Patrimônio Cultural Imaterial de Manaus, e que já ganhou repercussão internacional, citada até pela própria Fifa e pela imprensa estrangeira.
Neste ano, a Prefeitura de Manaus, por meio da ManausCult, investiu R$ 1 milhão no edital “Ruas da Copa”, contemplando 11 ruas e espaços com estrutura completa — palco, som, iluminação, telão de LED e banheiros químicos — para a exibição pública dos jogos. Entre os destaques:
- Rua Santa Isabel, no bairro Praça 14 de Janeiro, point tradicional que mistura futebol com a cultura amazonense, incluindo referências ao Grêmio Recreativo Escola de Samba Vitória Régia;
- Rua 24 de Agosto, no Morro da Liberdade;
- Rua da Copa do bairro Compensa, erguida pelos próprios trabalhadores da Semulsp;
- Avenida Leonardo Malcher, no Centro;
- Pontos no Alvorada e no conjunto Jardim Petrópolis.
E o impacto vai muito além da decoração bonita para foto. Moradores e ambulantes confirmam: o movimento nas Ruas da Copa aquece direto o bolso de quem vive de venda informal — churrasco, bebida, bandeirinha, bandeira, boné. Como resumiu uma vendedora ambulante em um dos bairros contemplados, esse tipo de evento atrai multidão para a rua e isso ajuda quem trabalha com vendas, garantindo uma renda extra para muita gente.
Não é só em Manaus: a tradição se espalha pelo Norte
A reportagem do Zona Franca também rastreou como a febre das ruas decoradas tomou conta de outras capitais amazônicas que o leitor da região acompanha de perto:
- Belém (PA): na Travessa 3 de Maio, no bairro Cremação, moradores amarram bandeiras verde e amarelas e pintam o asfalto, como fazem há gerações. No Barreiro, no Centro, a via comercial já ganhou até apelido próprio: “Vila do Hexa”.
- Macapá (AP): a tradição mais antiga do Norte nesse quesito. Desde 1994, moradores da Avenida Ana Nery, no Laguinho, decoram a rua de forma totalmente voluntária — e a avenida já venceu concurso local como melhor “Rua da Copa” da cidade.
- Boa Vista (RR): a Rua Professor Macedo, no bairro Buritis, apostou pesado: cerca de 32 mil bandeirinhas espalhadas pela via.
- Porto Velho (RO): a Prefeitura entrou de cabeça este ano com o projeto “Rua do Hexa”, no cruzamento das avenidas 7 de Setembro e Farquhar, no Centro, com pinturas do “canarinho pistola” ao lado dos mascotes da Copa e telão para a torcida.
- Santarém (PA): embora sem um projeto oficial tão estruturado quanto o de Manaus, a cidade também vive o clima de decoração de ruas e pontos de encontro popular para acompanhar os jogos, repetindo o costume que atravessa o Norte do país.
O comércio se prepara: Bate Palma fervendo
E por falar em movimentar a economia local, ninguém entende disso melhor que o comércio popular do Centro de Manaus — e, dentro dele, um endereço que é praticamente sinônimo de “comprar barato”: a Rua Marechal Deodoro, mais conhecida pelos manauaras como “Bate Palma” (ou “Shopping Bate Palmas”, como ficou famosa).
O nome vem de um costume antigo dos próprios comerciantes: bater palmas para chamar a atenção dos clientes que passam pela rua — embora muitas vendedoras venham trocando essa abordagem por um aceno mais discreto nos últimos anos, recurso que, segundo elas, tem até melhorado as vendas.
Pesquisas acadêmicas sobre o local descrevem o “Bate Palmas” como uma verdadeira vitrine popular da moda em Manaus, reunindo bancas e lojas em diversas galerias que vendem desde réplicas de marcas internacionais até roupas de marca própria — um comércio que atrai consumidores não só da capital, mas também de Roraima, Rondônia e do interior do Amazonas, que preferem ver e tocar a mercadoria antes de comprar, em vez de arriscar uma compra “no escuro” pela internet.
Com a Copa rolando, é exatamente esse tipo de comércio que entra em ritmo acelerado. Nas galerias da Marechal Deodoro — como a Galeria BBC e a Galeria I.ATA —, lojistas vêm anunciando camisas da Seleção com preços que vão de modelos de entrada, bem mais acessíveis ao bolso do torcedor, até versões “jogador”, com tecido e acabamento premium, para quem quer pagar mais e ter qualidade equivalente à usada em campo. A lógica do bairro é a mesma de sempre: vender mais, vender rápido e vender barato — e a expectativa entre os comerciantes é repetir, ou até superar, o movimento que cada fase decisiva do Brasil costuma trazer para o Centro.
Resumo rápido para você não perder nada
| O que | Quando | Detalhe |
| Brasil x Japão | Segunda (29/6), 13h (horário de Manaus) | NRG Stadium, Houston (TX) |
| Ponto facultativo estadual | Segunda (29/6) | Decretado pelo Governo do Amazonas |
| Ponto facultativo (Parintins) | Sexta (26/6) | Abertura do Festival de Parintins |
| Ruas da Copa em Manaus | Já em funcionamento | 11 espaços contemplados pela ManausCult |
| Comércio popular | Em ritmo de Copa | Bate Palma (R. Marechal Deodoro) com camisas e artigos da Seleção |
| Próxima fase, se Brasil vencer | 5 de julho | Oitavas de final, em Nova Jersey |
A Amazônia inteira — de Manaus a Belém, de Boa Vista a Porto Velho, passando por Santarém — vai parar para empurrar o Brasil rumo ao hexa. Bandeira na janela, camisa nova comprada no Centro, rua decorada e telão ligado: é assim que o Norte do país faz a sua parte nessa caminhada.
Reportagem: Portal Zona Franca
