Debate da Globo: Lula não venceu, mas Flávio perdeu entre os indecisos
Grupo qualitativo do Travessia aponta deslocamento dos indecisos para o petista por conta de tropeços do senador; Quaest e Datafolha mostram empate técnico e um eleitorado já quase todo cristalizado às vésperas do domingo

Sábado, 24 de outubro de 2026
O último debate da corrida presidencial, exibido pela TV Globo na noite de sexta-feira (23), não produziu um vencedor claro por méritos próprios, mas deixou um derrotado na leitura dos eleitores que ainda não haviam decidido o voto. É essa a principal conclusão de uma pesquisa qualitativa conduzida pelo cientista político Renato Dorgan, CEO do instituto Travessia, a pedido do Estadão, e publicada neste sábado pela repórter Bianca Gomes.
Segundo a análise, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) saiu do confronto em melhor posição junto aos indecisos não por apresentar propostas que os convencessem, mas por capitalizar erros do senador Flávio Bolsonaro (PL). Na síntese de Dorgan: “Ele não ganhou o debate. Flávio foi quem perdeu”.
A conclusão, porém, precisa ser lida com cautela. Trata-se de uma dinâmica com 12 pessoas, sem valor estatístico, e o quadro nacional medido pelos institutos segue de empate técnico, com Flávio numericamente à frente e um eleitorado em que mais de nove em cada dez já dizem ter o voto definido.
O que a “sala de espelho” revelou
O grupo reuniu seis eleitores indecisos, três declaradamente eleitores de Flávio e três de Lula, todos moradores das zonas Sul, Leste e Oeste da capital paulista, das classes B, C e D. Eles assistiram ao debate em uma casa na Vila Mariana e reagiram em tempo real com cartões coloridos: verde para aprovação, amarelo para neutralidade, vermelho para reprovação. A reportagem acompanhou tudo do outro lado de um vidro espelhado, sem ser vista.
O resultado foi assimétrico. Os eleitores já decididos não se moveram: ninguém trocou de lado. Entre os seis indecisos, porém, cinco saíram mais inclinados a votar na reeleição do presidente, e apenas uma permaneceu sem definição. Para Dorgan, o debate pode ter levado Lula a empatar com Flávio entre indecisos da classe C2D, faixa de renda média entre R$ 1.100 e R$ 2.600.
| Indicador | Lula (PT) | Flávio (PL) |
| Cartões verdes (aprovação) | 54,95% | 33,33% |
| Cartões vermelhos (reprovação) | 28,71% | 36,8% |
| Indecisos que saíram inclinados ao candidato | 5 de 6 | 0 de 6 |
| Eleitores próprios perdidos | 0 | 0 |
Fonte: Instituto Travessia / Estadão. Pesquisa qualitativa com 12 participantes; sem rigor estatístico, não equivale a pesquisa de intenção de voto.
Os dois momentos que viraram o jogo na sala
O caso Ana Clara. O ponto de maior desgaste para o senador foi a resposta sobre a morte da menina Ana Clara Gomes Machado, atingida por um tiro de fuzil que teria sido disparado por um policial que Flávio defendeu como advogado. Ao trocar o nome da criança pelo da mãe, o candidato provocou uma reação em bloco: todos os participantes que não eram seus eleitores levantaram cartão vermelho, e uma indecisa manteve o seu erguido durante toda a fala. O episódio, que segundo Dorgan já tinha alto grau de conhecimento entre os participantes, foi lembrado espontaneamente no fim da dinâmica. Uma eleitora que seguiu indecisa disse ter interpretado o erro como sinal de que o senador não se importava com o caso.
Os “nove dedos”. A referência de Flávio a Lula como “nove dedos” arrancou risos no primeiro momento, mas o clima virou quando o presidente lembrou que perdeu o dedo num acidente de trabalho aos 17 anos. A resposta de Lula foi bem recebida por quase todo o grupo, e a provocação passou a ser criticada até por uma eleitora do senador. Entre indecisos, houve quem visse desrespeito a trabalhadores e a pessoas com deficiência. O pedido de desculpas posterior de Flávio foi recebido com desconfiança por indecisos e lulistas.
Dorgan atribui o peso do episódio a um traço regional: na Grande São Paulo, segundo ele, é forte a memória de pais e avós que trabalharam no chão de fábrica, o que transformou o que poderia passar como piada em algo de dimensão bem maior.
Onde cada um acertou
Flávio teve seus melhores momentos ao falar do Nordeste, prometendo trabalhar com todos os governadores da região contra o crime organizado, o que lhe rendeu nove cartões verdes. Também agradou à maioria ao tratar do SUS e ao defender a redução da maioridade penal, embora parte do grupo tenha considerado exagerada a idade de 14 anos. Arrancou risadas ao se apresentar como o “carioca mais nordestino”.
Lula obteve nove avaliações positivas em dois momentos: ao falar do Centro-Oeste e dos investimentos do governo no agronegócio, e ao rebater o insulto do adversário. O presidente também divertiu a sala com respostas bem-humoradas sobre o agro e sobre a Amazônia.
Onde cada um tropeçou
Para os indecisos, Flávio fugiu de perguntas, deu respostas genéricas, insistiu na segurança pública em detrimento de outros temas e não apresentou realizações de seus anos de mandato. Um participante resumiu a percepção dizendo que o senador seria “a sombra do pai”.
Lula não saiu ileso. A resposta sobre o endividamento das famílias foi considerada vazia e gerou uma onda de cartões vermelhos. A idade e o longo tempo no poder pesam contra ele entre os indecisos, que repetiram ao longo da noite que o presidente “não é mais o mesmo”. Entre os eleitores de Flávio, as críticas se concentraram no custo de vida, na alta dos alimentos e na violência. O antipetismo também se mostrou sólido: os três apoiadores do senador deram cartão vermelho a Lula em todas as avaliações, enquanto Flávio chegou a receber cartões positivos de eleitores do petista.
O bloco final, de troca de acusações sobre o escândalo do Banco Master, foi o pior avaliado da noite pelo grupo.
O que dizem os números: empate técnico e pouco espaço para virada
Os levantamentos mais recentes dos dois principais institutos, feitos antes do debate, mostram uma disputa em que Flávio mantém liderança numérica, mas dentro da margem de erro, e em que a vantagem que ele trouxe do primeiro turno vem encolhendo.
Datafolha (20 a 22 de outubro). Flávio tem 47% e Lula, 46% dos votos totais; nos votos válidos, os dois aparecem empatados com 50% cada. Brancos e nulos somam 5%, e indecisos, 2%. O levantamento ouviu 2.520 eleitores, foi encomendado pela TV Globo e pela Folha de S.Paulo e tem margem de erro de dois pontos (registro BR-09709/2026).
| Datafolha | 08/out | 15/out | 22/out |
| Flávio Bolsonaro (PL) | 49% | 47% | 47% |
| Lula (PT) | 45% | 45% | 46% |
| Brancos/nulos/nenhum | 5% | 6% | 5% |
| Indecisos | 1% | 2% | 2% |
| Votos válidos (Flávio x Lula) | 52% x 48% | 51% x 49% | 50% x 50% |
Fonte: Datafolha, via VTV News e Estado de Minas. Votos totais, cenário estimulado. Margem de erro: 2 p.p.
Quaest (17 a 20 de outubro). Flávio aparece com 45% e Lula com 44% no cenário estimulado; brancos, nulos e quem não pretende votar somam 9%, e indecisos, 2%. Na pergunta espontânea, os dois empatam em 40%. A pesquisa, contratada pela Rede Globo, ouviu 2.154 eleitores, com margem de erro de dois pontos (registro BR-08535/2026). Na rodada anterior, divulgada em 14 de outubro, o placar era de 46% a 44% para o senador.
| Quaest | 03/out* | 14/out | 21/out |
| Flávio Bolsonaro (PL) | 44% | 46% | 45% |
| Lula (PT) | 42% | 44% | 44% |
| Diferença | Flávio +2 | Flávio +2 | Flávio +1 |
| Votos válidos (estimativa) | — | — | 50,6% x 49,4% |
Fonte: Quaest, via Gazeta do Povo, CNN Brasil e Forbes Brasil. *Simulação de 2º turno feita na véspera do 1º turno. Votos válidos de 21/out calculados pela reportagem a partir dos votos totais (45 ÷ 89 e 44 ÷ 89).
Os números que importam além do placar
- Eleitorado cristalizado: no Datafolha, 94% dizem estar totalmente decididos e só 6% admitem mudar o voto. É sobre essa franja, somada aos 2% de indecisos, que o efeito do debate pode operar.
- Rejeição equilibrada: 46% dizem não votar em Flávio de jeito nenhum (eram 44%), contra 45% de Lula (eram 46%). É a primeira vez no 2º turno que o senador aparece numericamente mais rejeitado.
- Governo melhora na margem: a aprovação da gestão Lula foi a 49% e a desaprovação caiu para 48%, primeira vez desde julho em que a aprovação supera numericamente a reprovação.
- Expectativa favorece Flávio: 53% acham que o senador vai vencer, contra 39% que apostam em Lula. Flávio também venceu o 1º turno, com 47,03% dos válidos contra 45,16%.
- Mapa do voto: Lula lidera no Nordeste (65% a 30%), entre quem ganha até dois salários mínimos (54% a 39%), entre católicos (55% a 39%) e entre quem tem até o ensino fundamental (53% a 40%). Flávio domina entre evangélicos (69% a 26%) e no Sul (58% a 33%).
- Motivação: 81% dos eleitores de Lula dizem votar nele por considerá-lo o melhor; entre os de Flávio, são 65%, e 23% afirmam votar principalmente para derrotar o petista.
Desdobramentos: o que cada um pode alcançar no domingo
Para Lula. O cenário mais favorável ao presidente é que o efeito captado na sala de espelho se repita em escala, convertendo indecisos de baixa renda, perfil em que ele já lidera nas pesquisas. A tendência joga a seu favor: no Datafolha, a vantagem de Flávio nos válidos caiu de quatro pontos para zero em duas semanas, e a melhora na avaliação do governo sustenta o movimento. Há ainda um detalhe raramente lembrado: em caso de empate matemático exato, o Código Eleitoral dá a vitória ao candidato mais velho. Os limites, porém, são claros. A própria análise do Travessia registra que ninguém disse que Lula foi bem; o desgaste por idade e tempo de poder persiste, e o ganho veio de erro alheio, o que tende a ser mais volátil do que uma adesão por convicção.
Para Flávio. O senador chega ao domingo com ativos relevantes: venceu o 1º turno, segue numericamente à frente nas duas principais pesquisas, a maioria do eleitorado acredita na sua vitória e o antipetismo de sua base se mostrou impermeável até no grupo qualitativo. Seus melhores momentos no debate, como segurança pública com foco no Nordeste e o SUS, falam a públicos que ele precisa conquistar. O risco é que os episódios da noite, sobretudo o caso Ana Clara e os “nove dedos”, ganhem vida própria nas redes no último dia de campanha e ampliem uma rejeição que já passou a ser numericamente maior que a do adversário. Num quadro de empate, perder uma fração de um ponto pode decidir a eleição.
O peso real do debate. Com 94% de votos consolidados, o debate dificilmente muda a eleição por si só. Seu impacto potencial está concentrado em algo como 4 a 6 pontos percentuais do eleitorado, justamente o espaço que separa os dois candidatos em quase todas as pesquisas. Em disputas desse tipo, o comparecimento às urnas tende a pesar tanto quanto a persuasão: no Datafolha, Lula vai melhor entre quem mora longe da seção eleitoral (51% a 43%), o que coloca a abstenção como variável a acompanhar.
O que observar até a votação
As pesquisas de véspera da Quaest e do Datafolha, previstas para este sábado, serão as primeiras a captar o ambiente pós-debate. A Quaest prevê 3.702 entrevistas (registro BR-09158/2026) e o Datafolha, 4.050 (registro BR-09540/2026), com divulgação do Datafolha prevista para o início da noite. Será o primeiro teste quantitativo para a hipótese levantada pelo grupo qualitativo do Travessia. Como referência, em 2022 a pesquisa de véspera do Datafolha indicava Lula com 52% dos válidos, e o resultado nas urnas foi de 50,90% a 49,10%.
Ressalvas metodológicas
- A pesquisa do Travessia é qualitativa, com 12 participantes da cidade de São Paulo; serve para entender reações e argumentos, não para projetar votos.
- Os levantamentos Quaest e Datafolha citados foram feitos antes do debate e não medem seu efeito.
- Diferenças de até quatro pontos entre os candidatos estão dentro da margem de erro combinada de dois pontos.
Fontes
- Estadão (Bianca Gomes), “Flávio ou Lula: quem conquistou indecisos de grupo que acompanhou o debate da Globo?”, 24/10/2026 — pesquisa qualitativa Instituto Travessia
- Gazeta do Povo — pesquisa Quaest de 21/10/2026: gazetadopovo.com.br/eleicoes/2026/pesquisa-eleitoral-2026/quaest-presidente-outubro-2026-segundo-turno-2/
- VTV News — pesquisa Datafolha de 22/10/2026: vtvnews.com.br/noticias/eleicoes/eleicoes-2026-datafolha-flavio-bolsonaro-lula-2-turno-bb/
- Forbes Brasil — Quaest de 14/10/2026; CNN Brasil — Quaest de 03/10/2026
- Brasil de Fato e Estado de Minas — calendário e registros das pesquisas de véspera (24/10/2026)
