Derrotado nas urnas, Wilson Lima vira alvo de conselheiro do TCE-AM, que fala em “quadrilhas” na gestão estadual
Em sessão do Tribunal Pleno, Ari Moutinho Jr. disse que o resultado eleitoral foi um “recado da população” contra os oito anos de governo, apontou falhas na educação, saúde e segurança e cobrou rapidez da Corte.
Um recado das urnas
Dois dias depois do primeiro turno das Eleições 2026, o conselheiro Ari Moutinho Jr., do Tribunal de Contas do Estado do Amazonas (TCE-AM), fez duras críticas à gestão do ex-governador Wilson Lima (União Brasil), derrotado na disputa por uma vaga no Senado. O pronunciamento ocorreu durante a 32ª Sessão Ordinária do Tribunal Pleno, nesta terça-feira (6).
Para Moutinho, o eleitor amazonense mandou um “recado” contra os últimos oito anos de administração estadual. O conselheiro classificou o período como marcado pela atuação de “quadrilhas” e disse que a população se manifestou “no silêncio da urna”.
“Eu acho que essa foi a eleição mais calada da história do Estado, manifestou que não ia mais se submeter a gracejos, a danças, a deboches, a homologação do que quadrilhas fizeram no Estado nos últimos oito anos”, declarou.
A fala faz referência ao resultado que levou Omar Aziz (PSD) e Professora Maria do Carmo (PL) ao segundo turno da disputa pelo Governo do Amazonas. O atual governador, Roberto Cidade (UB), candidato apoiado por Wilson Lima, terminou em terceiro lugar. Moutinho comemorou o resultado e afirmou que os dois finalistas não fariam parte do que chamou de “verdadeiras organizações criminosas”.
Educação “falida” e último lugar no Ideb
A educação foi o principal alvo do conselheiro. Segundo ele, a área estaria “falida, assaltada, vilipendiada”. Moutinho lembrou que o Amazonas empatou com Roraima na última posição do Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb).
O conselheiro relatou ainda a situação da escola onde vota, no bairro Nova Esperança, em Manaus. Sem ar-condicionado e com estrutura precária, o local foi descrito por ele como “um sofrimento”.
“A escola é um verdadeiro lixo, um sofrimento, sem ar-condicionado, e lá passei uma hora e meia esperando para votar. Fico imaginando, conselheiro Érico, se os assaltantes da Seduc, os crápulas que por lá passaram, os últimos secretários, não têm o mínimo de remorso”, afirmou.
Moutinho também chamou ex-secretários da Secretaria de Estado de Educação e Desporto Escolar (Seduc-AM) de “ladrões do futuro das crianças amazonenses”.
Saúde, OSs e a “fila da morte”
Na saúde, as críticas se voltaram aos contratos com Organizações Sociais (OS), que o conselheiro chamou de “um verdadeiro escárnio”.
“Denunciadas em Goiás e vieram para o Amazonas assaltar. Fortalecer a fila da morte do SISREG. E debochar da cara da população”, disse.
Na segurança pública, Moutinho afirmou haver relação entre grupos responsáveis por desvios e o crime organizado.
Acusações sem provas apresentadas
O próprio Moutinho reconheceu a cobrança ao pedir, na sessão, que a Corte “avance muito rápido”.
“Eu quero pedir, solicitar, se necessário for, implorar, para que esse Tribunal de Contas avance […]. Isso aí é virar página por página e ver crianças que morreram com fome, crianças que não conseguem chegar a ter a mínima noção das habilidades básicas de matemática, não conseguem interpretar um texto”, afirmou.
O recado do interior
O conselheiro também comentou o número de lideranças do interior eleitas para a Assembleia Legislativa do Amazonas (Aleam). Para ele, o resultado mostra a insatisfação dos municípios com a falta de atenção do poder público fora do período eleitoral.
“Eu entendo esse recado como o clamor da população do interior que já não aguenta mais ser lembrada só em processos eleitorais”, declarou.
Reflexão para fiscalizadores
Ao encerrar, Moutinho defendeu uma revisão das áreas de saúde, educação e segurança e disse que o Estado precisará de tempo, recursos e capacidade de gestão para superar um cenário de “sofrimento e abandono”. Segundo ele, o resultado das urnas deve servir de reflexão não só para políticos, mas também para técnicos, membros do Ministério Público, conselheiros e todos os responsáveis por fiscalizar a administração pública.
Outro lado
A reportagem procurou o ex-governador Wilson Lima e a Seduc-AM para comentar as declarações, mas não obteve resposta até a publicação desta matéria. O espaço segue aberto.
