Manaus

Fumaça das queimadas deixa Manaus no pior dia do ano e paralisa aviões que combatem o fogo

Baixa visibilidade impede decolagem das 11 aeronaves da força-tarefa; índice de poluição em Manaus chega a nível “perigoso”, governo estadual convoca comitê de urgência e Inmet prevê pancadas de chuva para este domingo (18)

Fumaça tira do ar quem combate o fogo

A fumaça das queimadas que cobre Manaus impediu, neste sábado (17), a decolagem das aeronaves que combatem os incêndios florestais no Amazonas. Segundo o Ibama (Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis), a baixa visibilidade inviabilizou as operações nos dois aeroportos usados pela força-tarefa na capital.

As aeronaves operam sob regras de voo visual (VFR, na sigla em inglês), que exigem visibilidade mínima por segurança dos pilotos. O órgão disse esperar melhora ao longo do dia para retomar os voos. Não é a primeira vez: na quarta-feira (14), seis aeronaves do Ibama também ficaram em solo pelo mesmo motivo.

A força-tarefa reúne 11 aeronaves — seis aviões Air Tractor, um avião da Defesa Civil estadual, um cargueiro KC-390 da FAB e três helicópteros — e cerca de 250 brigadistas em campo, coordenados pelo Ibama e outros órgãos federais. Os Air Tractor fazem lançamentos rápidos e precisos, de cerca de 3.000 litros de água cada; o KC-390 despeja grandes volumes; os helicópteros também lançam água e transportam brigadistas e equipamentos.

Desde o início da temporada, o Ibama diz ter extinguido 292 incêndios no Amazonas e combatia, neste sábado, outros oito ativos.

O pior dia do ano

Manaus amanheceu sob a camada de fumaça mais densa da temporada. Por volta das 6h30, a Defesa Civil municipal registrou concentração de partículas finas (PM2,5) de 401,4 microgramas por metro cúbico — dezenas de vezes acima do limite considerado seguro pela OMS (Organização Mundial da Saúde). Às 8h40, a plataforma internacional IQAir marcou 657 pontos no índice de qualidade do ar, faixa classificada como “perigosa”, enquanto Porto Velho (RO), a segunda capital mais poluída do país naquele momento, tinha 65.

Às 8h13, a Defesa Civil estadual disparou alerta de risco severo aos celulares, recomendando máscara fora de casa e evitar exposição. O epidemiologista Jesem Orellana, da Fiocruz Amazônia, avaliou que este é provavelmente o pior dia do ano em fumaça tóxica, orientou a população a ficar em casa e defendeu que estado e prefeitura considerem suspender parte das atividades a partir de segunda (19). Foi o 19º episódio de fumaça na capital em pouco mais de um mês.

Governo do Amazonas convoca comitê de urgência

Após dez dias de fumaça sobre Manaus, o governador Roberto Cidade (União Brasil) convocou em caráter de urgência o Copec (Comitê Permanente de Enfrentamento a Eventos Climáticos e Ambientais) para definir novas medidas de combate, fiscalização e proteção da população. Em vídeo nas redes sociais, admitiu que a situação continua grave e exige ação mais intensa, e prometeu punição com rigor da lei aos autores de incêndios criminosos.

O Corpo de Bombeiros do Amazonas pediu ao governo federal, também neste sábado, quatro aeronaves de grande porte para reforçar as operações de 25 de outubro a 25 de dezembro.

O que o estado já adotou

  • Proibição do uso do fogo em todo o Amazonas por 120 dias, com as exceções previstas em lei.
  • Decreto nº 55.751, de 10 de outubro, que declarou emergência por 180 dias em 36 municípios — de cidades do entorno de Manaus ao sul do estado —, reconhecida pelo governo federal.
  • Ampliação das bases permanentes dos Bombeiros no interior de 11 para 25 e do efetivo de 692 para 1.651 profissionais; contratação de 153 brigadistas florestais pelo programa Floresta em Pé.
  • Operação Amazonas Mais Verde e contratação de um avião para atuar em Manaus e Iranduba.
  • Suspensão de aulas presenciais na rede estadual em dias críticos, com base em nota técnica da Secretaria de Saúde e da FVS.

O que faz o governo federal

A força-tarefa federal foi montada após o pico de 494 novos focos em um único dia, em 10 de outubro. No dia seguinte, os ministros João Paulo Capobianco (Meio Ambiente e Mudança do Clima) e Waldez Góes (Integração e Desenvolvimento Regional) sobrevoaram as áreas atingidas e se reuniram com o governador. Capobianco classificou o quadro como mais grave do que imaginava.

Segundo o ministério, focos no interior da mata — e não em pastagens — indicam uso intencional do fogo para degradar a floresta e abrir caminho ao desmatamento. O ministro afirmou depois que equipes de combate flagraram pessoas ateando fogo à vegetação e anunciou reforço das investigações policiais. Pelos dados do Ibama, a área atingida por incêndios florestais no Amazonas passa de 674 mil hectares em 2026, alta de 422% sobre 2025.

Medidas federais em curso

  • 11 aeronaves e cerca de 250 brigadistas do Ibama/ICMBio e outros órgãos em campo.
  • Reconhecimento federal da emergência em 36 municípios, o que agiliza o repasse de recursos via Defesa Civil.
  • Força Nacional prevista para se instalar no Amazonas a partir de terça (20), segundo a Prefeitura de Manaus, após articulação com a Casa Civil.
  • Investigação policial para identificar e responsabilizar autores de incêndios criminosos.

Prefeitura pede socorro

O prefeito de Manaus, Renato Junior (Avante), fez neste sábado um apelo a autoridades estaduais, federais e internacionais. Ele afirma que a capital não é a origem do fogo, mas paga o preço das queimadas em outros municípios e estados. Dados do Inpe citados pela prefeitura mostram que Manaus respondeu por apenas 0,4% dos focos do estado nos primeiros 12 dias de outubro. A rede municipal já teve aulas e expediente presencial suspensos em vários dias do mês.

De onde vem o fogo

Interior do Amazonas

Nos dez primeiros dias de outubro, quatro municípios amazonenses ficaram entre os 20 com mais focos do país, segundo o BDQueimadas, do Inpe: Lábrea (225 focos, 4º no ranking nacional), Boca do Acre (180), Autazes (151) e Itacoatiara (75). Também concentram registros Apuí, Novo Aripuanã, Manicoré, Careiro da Várzea, Manaquiri, Iranduba e Manacapuru.

Há dois polos. O sul do estado (Lábrea, Boca do Acre, Apuí, Novo Aripuanã, Manicoré), na fronteira agropecuária com Rondônia e Acre, concentra o maior número de focos. Já a fumaça que chega a Manaus vem sobretudo do leste e da região metropolitana — Autazes, Itacoatiara, Careiro da Várzea e Manaquiri, segundo a prefeitura. Um dos maiores incêndios, às margens da AM-010, na entrada de Itacoatiara, chegou a cerca de 1.150 hectares.

Estados vizinhos

Prefeitura e Defesa Civil atribuem parte da fumaça a queimadas em Rondônia, no Pará e em Mato Grosso, transportada pelo vento. O estudo mais específico até agora, do Laboratório de Aplicações de Satélites Ambientais da UFRJ, analisou as trajetórias das massas de ar entre 10 e 15 de outubro e concluiu que elas passaram por áreas do Pará com muitos focos, a leste de Manaus. Desde o dia 10, Pará (1.188) e Amazonas (726) somam mais da metade dos focos do Brasil. No ranking do Inpe, municípios paraenses como Uruará, Itaituba, Portel e Santarém aparecem entre os líderes.

Cobrança na Justiça e no TCE

A Justiça Federal deu dez dias, em decisão de 13 de outubro, para que União, Ibama, Ipaam e os governos do Amazonas e do Pará expliquem o que estão fazendo para conter as queimadas, inclusive a aplicação de recursos e eventuais recusas de ajuda entre os entes. O Ministério Público de Contas também pediu ao Tribunal de Contas do Estado que avalie a eficiência das ações estaduais.

E amanhã? Previsão para domingo (18)

A chuva é a principal aposta de alívio. O Inmet (Instituto Nacional de Meteorologia) mantém aviso amarelo de potencial para tempestades em áreas do Amazonas, incluindo Manaus, com instabilidade ganhando força no domingo. Previsões para a capital indicam calor de até 36 °C, céu encoberto e chuva fraca ou esparsa, com volumes baixos.

Meteorologistas avaliam que a chuva pode reduzir a concentração de partículas no ar, mas a melhora depende da intensidade e da distribuição das pancadas. Pancadas isoladas e fracas tendem a dar trégua apenas temporária, como já ocorreu neste mês.

Números da crise 7.815 focos no Amazonas de 1º/jan a 12/out — alta de 116% sobre 2025 (Inpe)494 focos em 10/out, maior número diário do ano674 mil hectares atingidos por incêndios florestais em 2026, +422% (Ibama)657 pontos no índice IQAir em Manaus às 8h40 deste sábado (nível “perigoso”)401,4 µg/m³ de PM2,5 às 6h30 (Defesa Civil de Manaus)36 municípios em situação de emergência292 incêndios extintos pelo Ibama; 8 ativos neste sábado

Fontes consultadas

  • Folha de S.Paulo — texto-base (17/10)
  • Ibama/MMA — notas oficiais; Correio Braziliense (15/10), Agência Brasil (12 e 16/10)
  • Governo do Amazonas — Amazonas Atual, Em Tempo, Portal Raiz Digital, Expresso AM (17/10); Exame (11/10); Poder360 (9/10)
  • Prefeitura de Manaus — manaus.am.gov.br (12/10); Canal 92 AM (17/10)
  • Qualidade do ar — Jovem Pan, Revista Oeste, Brasil em Folhas (17/10)
  • Origem do fogo — CNN Brasil e Revista Oeste (ranking Inpe), O Tempo (15/10), NC News (17/10), Lasa/UFRJ via Brasil em Folhas (14/10), Folha BV (17/10)
  • Justiça/TCE — Nexo (14/10), Band (15/10), MPC-AM
  • Previsão — Inmet (aviso para 17 a 19/10), Climatempo, HG Brasil
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