CazéTV: o modelo de negócio que quebrou o monopólio da Globo e virou referência mundial
Por trás da linguagem descontraída de Casimiro Miguel, há uma holding bilionária sediada nas Ilhas Cayman, sócios como Cristiano Ronaldo e um formato que já é copiado na Europa

Há quatro anos, a CazéTV não existia. Hoje, é a única emissora brasileira a transmitir os 104 jogos da Copa do Mundo de 2026 — um feito que encerra 54 anos de hegemonia da Rede Globo nas transmissões mundiais no país. Por trás da tela, onde tudo parece espontâneo e artesanal, existe uma engenharia financeira sofisticada, construída por executivos do mercado esportivo e hoje sustentada por fundos de investimento, um jogador português bicampeão do mundo e uma legislação que mudou as regras do jogo em 2021.
O modelo: verticalização, publicidade gratuita e escala
A CazéTV é um canal esportivo e de entretenimento multiplataforma brasileiro, que transmite pelo YouTube, Amazon Prime Video, Disney+, Samsung TV Plus e Mercado Play. Criada em novembro de 2022, o canal pertence à LiveMode, empresa de marketing esportivo que hoje detém 100% de suas cotas — desde novembro de 2025, quando a produtora de Casimiro deixou de ser sócia direta do canal.
O segredo do negócio está na verticalização. A LiveMode atua como representante da Fifa na negociação de direitos esportivos e, ao mesmo tempo, como dona da CazéTV, compra esses mesmos direitos para exibir os eventos. Isso significa que a mesma empresa negocia de um lado e compra do outro — um modelo que gera receita em cada etapa da cadeia, mas também levanta debates sobre conflito de interesse no mercado.
Diferentemente da TV paga tradicional, a estratégia da CazéTV é sustentar transmissões gratuitas financiadas por publicidade, patrocínios e ações de marcas, o que amplia o alcance do público. Para os patrocinadores, quanto mais gente assiste de graça, maior o retorno; para os organizadores de campeonatos, é uma forma de alcançar audiências mais jovens, que a TV aberta já não capturava do mesmo jeito.
A virada regulatória veio com a Lei do Mandante (Lei nº 14.205/2021), que deu aos clubes de futebol liberdade para negociar suas transmissões de forma independente, enfraquecendo o modelo centralizado que sustentava o domínio da Globo. Foi essa brecha legal que permitiu à LiveMode montar o quebra-cabeça que hoje movimenta bilhões.
De Casimiro Miguel às lives no quarto: a origem do fenômeno
É importante um esclarecimento: o rosto da CazéTV é o streamer carioca Casimiro Miguel, o “Cazé” — não o jogador de futebol Casemiro, da Seleção Brasileira. A confusão é comum, mas os dois nomes não têm relação alguma no negócio.
Casimiro ganhou notoriedade gravando lives descontraídas durante a pandemia de Covid-19 e, ainda em 2020, começou a transmitir partidas de futebol de forma paga em seu canal na Twitch, começando por um jogo entre Vasco e Athletico Paranaense. O experimento provou que havia demanda: a transmissão reuniu cerca de 40 mil assinantes pagos e mostrou que existia espaço para uma linguagem diferente da televisão tradicional, capaz de conectar com o público jovem.
Por trás dessa aposta estavam Edgar Diniz e Sérgio Lopes, fundadores da LiveMode em 2017 e ex-executivos do Esporte Interativo — canal pioneiro que, nos anos 2000, já apostava em competições europeias para fugir do monopólio da Globo sobre o futebol nacional. A dupla trouxe para a nova empreitada a mesma lógica: em vez de vender os direitos a um único comprador, fragmentar a distribuição entre TV, streaming, YouTube e outras plataformas para aumentar a receita total.
A virada da Copa do Catar: a prova de conceito
O grande salto aconteceu em 2022. A LiveMode era agência da Fifa no Brasil e negociava os direitos digitais da Copa; a Globo abriu mão da exclusividade no streaming e a LiveMode ficou com o pacote por cerca de US$ 3 milhões — uma fração dos US$ 90 milhões anuais que a Globo pagava pelos direitos completos. O pacote, sozinho, valia pouco. Faltava uma operação capaz de transformá-lo em audiência — e foi aí que entrou a CazéTV.
Os números da estreia impressionam até hoje: a abertura do Mundial, entre Catar e Equador, reuniu cerca de 1 milhão de espectadores simultâneos; a estreia do Brasil contra a Sérvia chegou a 3,5 milhões; nas oitavas, contra a Coreia do Sul, o pico foi de 5,3 milhões; e a última partida do Brasil no torneio bateu 6,9 milhões de espectadores ao mesmo tempo. Na Copa de 2026, o canal já quebrou recordes globais, somando dezenas de milhões de inscritos.
Elenco de peso: Romário, Fernanda Gentil e narradores da nova geração
Um dos pilares da estratégia é misturar experiência esportiva com linguagem popular. Para a cobertura da Copa de 2026, a CazéTV reuniu ex-atletas como Romário, Nenê, Rodrigo Caio, Ricardo Quaresma, Elias e Djalminha, além da jornalista Fernanda Gentil, contratada para cobrir a seleção nos Estados Unidos ao lado de nomes como Guilherme Beltrão e Chico Moedas. A narração ficou a cargo de uma nova geração de vozes — Luis Felipe Freitas, Fernando Nardini, Marcelo Hazan, Raony Pacheco, entre outros —, com humor garantido por criadores como Diogo Defante.
O resultado é um tom de transmissão que soa mais próximo da conversa entre amigos do que do jornalismo esportivo tradicional — o que já rendeu momentos virais, como o climão ao vivo entre Romário e Fernanda Gentil após o empate do Brasil com Marrocos, quando o ex-atacante rebateu a análise da jornalista sobre o resultado. O episódio, mesmo controverso, ilustra o tipo de espontaneidade que a emissora cultiva como marca registrada — algo impensável nos estúdios engessados da TV aberta.
De importadora a exportadora: a CazéTV como referência internacional
O que começou como uma solução brasileira virou modelo de exportação. Cristiano Ronaldo se tornou acionista estratégico da LiveModeTV, o braço internacional do grupo, e a empresa já iniciou operações em Portugal, mirando também Espanha, Itália, França e Alemanha. Segundo apuração da BBC News Brasil, a primeira grande transmissão da operação portuguesa — o jogo entre Brasil e Marrocos pela Copa do Mundo — teria alcançado quase um terço dos lares de Portugal.
O fenômeno não é mais uma exclusividade brasileira, mas o Brasil virou uma espécie de laboratório mundial do formato. No Reino Unido, o ex-jogador Gary Neville e o influenciador Mark Goldbridge passaram a transmitir partidas da Bundesliga; na França, o streamer Zack Nani comprou direitos da liga saudita de futebol e da seleção francesa sub-21; e a Kings League, criada pelo ex-zagueiro espanhol Gerard Piqué em parceria com o influenciador Ibai Llanos, é outro exemplo de competição pensada direto para o ambiente digital. Nenhuma dessas iniciativas, porém, chega perto da escala da CazéTV, que rivaliza diretamente com a Globo.
O impacto já é sentido fora do país. Segundo a consultoria britânica Ampere, especializada em mídia esportiva, a América Latina é a região onde mais se consome transmissões com criadores de conteúdo reagindo e comentando partidas — no México, líder do ranking, o índice chega a 73% dos fãs de esporte; no Brasil, quarto colocado, a 62%. Ligas europeias já estudam o fenômeno: executivos da Bundesliga relataram que testes feitos no Brasil ajudaram a reproduzir o formato em outros mercados, e a Copa do Rei, na Espanha, passou a testar o mesmo modelo com influenciadores locais.
A diferença de escala ajuda a explicar por que a CazéTV se tornou referência: enquanto acordos como o de Zack Nani com a liga saudita giram na casa das centenas de milhares de libras, a BBC News Brasil apurou que o canal brasileiro deve gastar cerca de US$ 200 milhões — perto de R$ 1 bilhão — em direitos de transmissão só em 2026, ano em que exibirá os 104 jogos da Copa do Mundo, contra 64 partidas na grade da Globo.
Capital internacional também entrou na conta. Em 2024, a gestora americana General Atlantic e um fundo de private equity da XP fizeram um aporte minoritário estimado em cerca de R$ 450 milhões na LiveMode, para acelerar investimentos em propriedades esportivas e internacionalização.
Os desafios: publicidade de bets e questões regulatórias
Nem tudo é só crescimento. A integração entre conteúdo editorial e publicidade — inclusive de casas de apostas esportivas — colocou a CazéTV na mira de órgãos de fiscalização. O Conar chegou a suspender, em caráter liminar, anúncios de casas de apostas exibidos durante a Copa, e a Senacon abriu investigação sobre possíveis irregularidades na divulgação de bets nas transmissões. Especialistas ouvidos pela imprensa apontam que, na TV aberta, publicidade e conteúdo editorial são blocos separados por regra; no formato da CazéTV, essa linha ficou mais difusa — um território ainda pouco regulado no ambiente digital.
O que fica para quem observa o fenômeno a partir de Manaus
O caso CazéTV interessa além do campo esportivo: mostra como conteúdo digital, legislação favorável e capital de risco podem reconfigurar, em poucos anos, um setor dominado por gigantes há meio século. Para o mercado de comunicação e mídia regional, é um lembrete de que audiência, hoje, se conquista menos pela estrutura tradicional de uma emissora e mais pela conexão direta — e pela linguagem — com quem está do outro lado da tela.
Reportagem produzida com base em apuração da BBC News Brasil e de veículos como Exame, InvestNews, Agência Brasil, CNN Brasil, Lance!, Goal.com e Wikipédia.
