Da escama ao mercado global: como o Amazonas transforma sua biodiversidade em renda
Couro e escamas de peixes viram biojoias e moda de luxo, o artesanato dos povos do Rio Negro ganha lojas e vitrines internacionais, óleos como pau-rosa, patchuli e andiroba abastecem a indústria de cosméticos e perfumaria, e o Centro de Bionegócios da Amazônia (CBA) tenta transformar tudo isso em ciência, escala e exportação.

Biojoias e couro de peixe: da várzea para as passarelas
No Amazonas, peixes como o pirarucu e o tambaqui deixaram de fornecer apenas alimento. A pele, transformada em couro por meio de curtimento artesanal, e as escamas, aproveitadas em joalheria, deram origem a uma cadeia de produtos de moda e decoração com forte apelo de sustentabilidade.
Principais produtos: bolsas, carteiras, clutches, cintos, sapatos, botas, pochetes (as chamadas “peixetes”), coletes, estofados, colares, brincos, pulseiras, tiaras, almofadas e chaveiros — muitos combinando couro de peixe com sementes e fibras regionais.
O pirarucu, um dos maiores peixes de água doce do mundo, é o carro-chefe desse mercado. Sua pele tem textura resistente e escamas rígidas que funcionam como uma espécie de blindagem natural do animal — características que a tornam atraente para curtumes e grifes internacionais. Tambaqui, aruanã, matrinxã e tucunaré também entram na cadeia produtiva.
O processo começa nas comunidades ribeirinhas, que fazem o manejo sustentável dos pirarucus em unidades de conservação como a Reserva de Desenvolvimento Sustentável Mamirauá. Depois de pescada dentro de cotas controladas, a pele segue para o curtimento — lavagens, remoção de escamas e gordura, tingimento, secagem e corte — geralmente por meio de parcerias entre cooperativas locais e empresas especializadas em couro exótico.
O modelo de manejo comunitário do pirarucu é hoje considerado uma referência mundial de conservação aliada à geração de renda: em algumas áreas monitoradas a população do peixe cresceu centenas de pontos percentuais desde que o manejo sustentável foi adotado, e a renda das famílias envolvidas aumentou de forma consistente, permitindo investimentos em saneamento, energia solar e infraestrutura comunitária.
Iniciativas empresariais recentes têm buscado profissionalizar essa cadeia. Startups de bioeconomia já captaram recursos de programas públicos para montar plantas-piloto de processamento de couro de pirarucu livre de metais pesados, conectando pescadores tradicionais diretamente às cadeias internacionais de moda.
As biojoias de escama, por sua vez, nasceram de forma quase artesanal em comunidades ribeirinhas — como em festivais tradicionais do pirarucu no Pará e no Amazonas — e hoje são vendidas em ateliês, feiras de economia solidária e lojas especializadas em acessórios sustentáveis, com aceitação crescente também fora do país.
Artesanato indígena do Rio Negro: Içana, Tucano e Yanomami

A região de São Gabriel da Cachoeira, no Alto Rio Negro, é a segunda cidade do Brasil em concentração de população indígena e reúne 23 etnias — entre elas Tucano, Baniwa, Yanomami, Dessana, Tariana, Wanano e Curipaco. O artesanato local está diretamente ligado à vida cotidiana dessas comunidades: cestaria em fibra de arumã, tucum e piaçava, cerâmica, trançados, bancos rituais e biojoias, com técnicas milenares e desenhos que carregam significado cultural.
Na bacia do rio Içana, moradia de povos de origem Aruak como os Baniwa, cresce a produção de balaios e urutus (peneiras e cestos tradicionais) para venda, com destaque para o protagonismo das mulheres artesãs. A extração da matéria-prima é feita de forma manejada, já que grande parte do território é terra indígena demarcada.
Para organizar a comercialização, associações locais se estruturaram: a ASSAI (Associação dos Artesãos Indígenas de São Gabriel da Cachoeira) reúne cerca de 30 famílias de diferentes etnias, enquanto a Organização Indígena da Bacia do Içana (OIBI) representa comunidades do Içana. A Federação das Organizações Indígenas do Rio Negro (FOIRN) criou a Casa Wariró, loja e centro de referência do artesanato indígena na sede de São Gabriel da Cachoeira, que reúne cestaria, cerâmica, artefatos em madeira e biojoias de diversas etnias sob parâmetros comuns de qualidade e preço.
Segundo relatos de organizações que apoiam essas comunidades, parte da produção vendida pela Wariró já chega, por meio de vendas on-line, a lojas no Brasil e no exterior. Plataformas como a Tucum Brasil também conectam artesãs indígenas de diferentes regiões do país a compradores urbanos, gerando renda e autonomia financeira para essas mulheres.
Projetos de capacitação — como o “Parentas que Fazem”, da Fundação Amazônia Sustentável (FAS) — têm reforçado associações de mulheres indígenas do Alto, Médio e Baixo Rio Negro com formação técnica e aporte financeiro, ajudando a estruturar preço, qualidade e escoamento da produção.
Perfumes da floresta: pau-rosa e patchuli

Poucos produtos amazônicos têm uma história tão ligada à perfumaria internacional quanto o óleo essencial de pau-rosa (Aniba rosaeodora). Extraído da madeira ou, mais recentemente, das folhas da árvore, o óleo é rico em linalol e foi historicamente usado como fixador em perfumes finos — a criação do Chanel nº 5 está entre os exemplos mais conhecidos do uso desse insumo brasileiro.
A exploração do pau-rosa começou no Pará em 1925 e se espalhou para o Amazonas, atingindo o auge de produção na década de 1960, com cerca de 500 toneladas exportadas por ano. O corte predatório quase levou a espécie à extinção, o que motivou sua inclusão, em 2010, no Apêndice II da Convenção sobre o Comércio Internacional de Espécies Ameaçadas (Cites) — hoje a comercialização e a exportação só são permitidas a partir de áreas de manejo autorizadas.
Atualmente, produtores como usinas familiares de Maués e cooperativas de Manicoré, no Amazonas, extraem o óleo por meio de poda de galhos e folhas — sem derrubar a árvore — em parceria com indústrias de cosméticos que compram a produção de forma regular. O Brasil segue como único fornecedor mundial desse óleo, historicamente destinado sobretudo aos mercados dos Estados Unidos e da União Europeia.
Já o patchuli (Pogostemon cablin), embora não seja nativo da Amazônia, tem produção adaptada na região e é amplamente usado como fixador em perfumaria, sabonetes e cosméticos, combinando-se bem com o próprio óleo de pau-rosa. Empresas de extratos vegetais da região Norte já produzem e comercializam esse óleo junto a outros ativos amazônicos, como priprioca e breu, voltados à indústria de fragrâncias nacional e internacional.
Andiroba: o remédio da floresta na prateleira

Extraído da amêndoa da andirobeira, o óleo de andiroba é um dos produtos mais tradicionais da farmacopeia amazônica. Comunidades ribeirinhas e indígenas usam o óleo havia gerações como anti-inflamatório, cicatrizante, repelente natural de insetos e hidratante para pele e cabelo.
Hoje o óleo saiu do uso doméstico e chegou às prateleiras de farmácias e lojas de produtos naturais em todo o Brasil, vendido por marcas amazônicas — como Aroma Produtos Naturais da Amazônia, DNA Amazônia, Pharmakos D’Amazônia e Inatú Amazônia — em versões in natura ou já formuladas em cremes, sabonetes e óleos de massagem. A cadeia costuma seguir o mesmo caminho de outros óleos da floresta: extração por pequenas usinas comunitárias, beneficiamento por marcas especializadas e venda em farmácias, e-commerce e lojas de cosméticos naturais.
Assim como a andiroba, óleos como copaíba, breu e buriti seguem o mesmo modelo de negócio, e parte dessa produção já integra linhas de cosméticos brasileiros vendidas para o exterior, embora a exportação directa do óleo bruto ainda seja menor do que a de insumos como o pau-rosa.
CBA: o hub que quer transformar biodiversidade em bionegócio
Criado em 2002 em Manaus, inicialmente como Centro de Biotecnologia da Amazônia, o CBA (hoje Centro de Bionegócios da Amazônia) é considerado o maior parque tecnológico voltado à bioeconomia da região Norte. Instalado no Polo Industrial de Manaus, ocupa um complexo de mais de 12 mil metros quadrados, com dezenas de laboratórios e unidades de apoio técnico.
Depois de mais de 20 anos sob gestão da Superintendência da Zona Franca de Manaus (Suframa), o CBA passou por uma reestruturação em 2023: um decreto presidencial o desvinculou da Suframa e transferiu sua gestão para uma organização social formada pela Fundação Universitas de Estudos Amazônicos (Fuea), pela Universidade do Estado do Amazonas (UEA) e pelo Instituto de Pesquisas Tecnológicas de São Paulo (IPT-SP), vinculando o Centro ao Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC).
Entre os projetos do CBA está o desenvolvimento de uma bebida nutracêutica de açaí rica em compostos antioxidantes, pensada para auxiliar no combate a doenças como aterosclerose, problemas hepáticos, cardiovasculares e obesidade — e cujos subprodutos são reaproveitados para gerar pães e produtos de panificação com menor proporção de trigo importado. O Centro também trabalha em corantes naturais a partir de milhares de espécies de microrganismos amazônicos, bioplásticos, celulose bacteriana, biocombustíveis a partir de resíduos e óleos essenciais de espécies como a laranja regional.
Além da pesquisa, o CBA atua na capacitação de comunidades tradicionais, ribeirinhos e povos originários para produção de base sustentável, e mantém a plataforma “CBA Open”, voltada a conectar empreendedores, cientistas e investidores interessados em bionegócios amazônicos. A meta declarada pela gestão é destinar parte dos recursos captados ao apoio direto das cadeias produtivas de comunidades tradicionais.
Diferentemente das marcas de biojoias e óleos vendidos ao consumidor final, o papel do CBA é majoritariamente pré-competitivo: pesquisa, prova de conceito e transferência de tecnologia para empresas que depois industrializam e comercializam os produtos — inclusive com potencial de exportação, um dos objetivos citados pelo governo federal ao anunciar a reestruturação do Centro.

Onde comprar e o que é exportado
A comercialização desses produtos amazônicos segue, hoje, três canais principais: venda direta em feiras, ateliês e lojas de comunidades e associações; distribuição por marcas regionais especializadas (farmácias, lojas de cosméticos naturais e e-commerce); e comércio por atacado para indústrias de moda, perfumaria e cosméticos, inclusive fora do país.
| Produto | Onde encontrar | Exportação |
| Couro e biojoias de pirarucu/tambaqui | Cooperativas de manejo (ex.: Mamirauá), ateliês e feiras em Manaus, lojas de moda sustentável e plataformas on-line | Sim — mercado de moda dos EUA e Europa (curtumes especializados) |
| Artesanato indígena (cestaria, cerâmica, biojoias) | Casa Wariró (São Gabriel da Cachoeira), Tucum Brasil, feiras de economia solidária e lojas de artesanato | Vendas on-line alcançam lojas no exterior; ainda incipiente |
| Óleo essencial de pau-rosa | Usinas de Maués e Manicoré, distribuidoras de insumos para perfumaria | Sim — histórico de exportação para EUA e União Europeia (perfumaria fina) |
| Óleo de patchuli | Empresas de extratos e distribuidoras de insumos cosméticos | Sim — insumo global de perfumaria; Brasil é fornecedor secundário |
| Óleo de andiroba | Farmácias, lojas de produtos naturais, marcas amazônicas (ex.: Inatú, Aroma, DNA Amazônia), e-commerce | Presente em cosméticos exportados por marcas brasileiras |
| Bioprodutos do CBA (extratos, corantes, bebidas funcionais) | Transferência de tecnologia para empresas parceiras; ainda não há venda direta ao consumidor | Potencial de exportação via empresas licenciadas |
De modo geral, os óleos essenciais de pau-rosa e patchuli têm o histórico de exportação mais consolidado, vendidos há décadas para indústrias de perfumaria dos Estados Unidos e da Europa. O couro e as biojoias de peixe vêm ganhando os mercados internacionais de moda mais recentemente, ainda que sob debate: pesquisadores acompanham de perto o crescimento das exportações de couro de pirarucu para garantir que venham exclusivamente de áreas de manejo legalizado, evitando repetir problemas de sobre-exploração já registrados em outras espécies no mundo.
Já o artesanato indígena do Rio Negro e os óleos medicinais como a andiroba têm no mercado interno seu principal destino — farmácias, lojas de produtos naturais, feiras de economia solidária e plataformas de e-commerce —, com exportação ainda pontual, impulsionada principalmente por vendas on-line de associações e marcas coletivas indígenas. Os bioprodutos desenvolvidos pelo CBA, por fim, ainda estão em fase de transferência de tecnologia para empresas parceiras, sem venda direta ao consumidor final.
O ponto em comum entre essas cadeias é a aposta na bioeconomia como alternativa de renda que dependa da floresta em pé: quanto mais valor agregado — couro curtido em vez de pele descartada, óleo essencial certificado em vez de madeira derrubada, artesanato de marca coletiva em vez de peça avulsa —, maior o potencial de gerar receita sem repetir o ciclo histórico de exploração predatória que já ameaçou espécies como o próprio pau-rosa.
Empregabilidade: o que a bioeconomia representa para o trabalhador amazônico
Para além do valor simbólico de transformar escama, óleo e fibra em produto de mercado, essas cadeias produtivas têm um efeito direto sobre a vida de quem mora na floresta: geram trabalho e renda onde historicamente havia poucas alternativas além do extrativismo predatório, do êxodo para a periferia das cidades ou de atividades ilegais como garimpo e desmatamento.
O tamanho do setor no Amazonas. Segundo levantamento do Governo do Amazonas, a economia da sociobiodiversidade movimentou cerca de R$ 3,1 bilhões entre 2010 e 2020 no estado e gerou mais de 59 mil empregos diretos e indiretos, com crescimento médio de 10% ao ano — um indicativo de que a bioeconomia já é hoje uma frente relevante de geração de trabalho formal e informal para ribeirinhos, indígenas e agricultores familiares.
Em escala regional, um estudo da The Nature Conservancy (TNC Brasil) mapeou 30 cadeias de produtos da sociobiodiversidade só no Pará e estimou 224 mil empregos gerados em 2019, sendo 84% deles em estruturas produtivas de base familiar — ou seja, empregos que ficam dentro da própria comunidade, sem exigir migração para grandes centros. Projeções recentes de consultorias e institutos de pesquisa apontam que uma rede de hubs de bioeconomia na Amazônia poderia gerar até 620 mil empregos verdes na região até 2035, caso o setor siga se profissionalizando e ganhando escala.
Manejo de pirarucu. Nas reservas extrativistas do Amazonas administradas pelo ICMBio, cerca de 400 famílias de pescadores já vivem do manejo sustentável do pirarucu, com a atividade movimentando recursos financeiros relevantes para essas comunidades. No Vale do Javari, um projeto-piloto de manejo já beneficia mais de 100 famílias das etnias Kanamari e Mayuruna, unindo pesca controlada, vigilância territorial e turismo de pesca esportiva para manter renda o ano inteiro. Relatos de associações locais indicam que o lucro líquido por família pode chegar a ser dez vezes maior do que na época da pesca predatória e desordenada, permitindo investimentos em energia solar, tratamento de água e educação nas comunidades.
Curtimento, couro e biojoias. A cadeia de aproveitamento da pele do pirarucu cria uma camada adicional de empregos além da pesca: curtidores, costureiras, designers de acessórios e artesãs de biojoias passam a ter ocupação remunerada a partir de um material que antes era descartado. Fundações que atuam na região destacam que o aproveitamento da pele gera empregos diretos e indiretos e fortalece a competitividade da região no mercado de couro e acessórios.

Artesanato indígena. Em São Gabriel da Cachoeira, mais de 300 famílias de dez comunidades já têm o artesanato como carro-chefe de renda, segundo levantamento do Idam, trabalhando com fibras como arumã, tucum e piaçava. Associações como a ASSAI reúnem cerca de 30 famílias de diferentes etnias, e projetos de capacitação como o “Parentas que Fazem” já destinaram recursos e formação a associações de mulheres indígenas do Rio Negro, ajudando a transformar uma prática cultural em fonte de renda estruturada, sem que o artesão precise deixar sua comunidade.
Óleos essenciais e medicinais. Nas usinas de pau-rosa de Maués e nas cooperativas de extração de andiroba, copaíba e breu, o trabalho costuma envolver toda a família: da coleta na floresta ao processamento em pequenas usinas comunitárias, passando pelo controle de qualidade e embalagem para marcas parceiras. Esse modelo mantém o pagamento em dinheiro na hora da entrega do produto às cooperativas, uma forma direta de geração de renda para extrativistas que, de outro modo, dependeriam de atividades sazonais ou migratórias.
CBA como formador de mão de obra qualificada. Além da pesquisa científica, o Centro de Bionegócios da Amazônia atua na capacitação de moradores de comunidades tradicionais, unidades de manejo e empreendedores agroflorestais, formando mão de obra técnica para etapas de beneficiamento, controle de qualidade e gestão de pequenos negócios — um tipo de empregabilidade que não aparece nas estatísticas de produção, mas amplia a empregabilidade de quem vive nessas cadeias.
Em conjunto, esses números sugerem que a bioeconomia amazonense já emprega dezenas de milhares de pessoas de forma direta e indireta e tem potencial de crescimento significativo nos próximos anos. Mais do que uma alternativa ambiental, o setor se consolida como uma alternativa concreta de trabalho e renda para o homem e a mulher da região — pescador, ribeirinho, indígena ou agricultor familiar —, permitindo que ele permaneça em sua comunidade, viva da floresta em pé e ainda assim participe de cadeias que abastecem mercados nacionais e internacionais.
