Brasil tropeça de novo: a Noruega, o jejum de 24 anos e as perguntas que sobram para o hexa

A queda diante da Noruega
Neste domingo (5), no MetLife Stadium, em Nova Jersey, a seleção brasileira caiu diante da Noruega por 2 a 1 nas oitavas de final da Copa do Mundo de 2026. Foi a eliminação mais precoce do Brasil em uma Copa desde 1990, quando a Argentina também eliminou a equipe nas oitavas, por 1 a 0.
O jogo resumiu bem o momento da equipe: o confronto começou travado, com as duas seleções adotando postura cautelosa, e o Brasil teve uma chance de ouro aos 13 minutos do primeiro tempo, quando o árbitro assinalou pênalti com auxílio do VAR — mas Bruno Guimarães parou na grande defesa do goleiro norueguês Ørjan Nyland. Ancelotti mexeu na equipe no intervalo, lançando Endrick, e depois arriscou ainda mais, colocando Neymar em campo. Ainda assim, aos 34 minutos do segundo tempo Erling Haaland cabeceou sem chances para Alisson após cruzamento pela esquerda, e nos acréscimos ampliou com um chute rasteiro e cruzado. O Brasil descontou em pênalti convertido por Neymar, mas não teve tempo de reagir.
Um detalhe simbólico: a Noruega segue sendo a única seleção que o Brasil nunca venceu em toda a sua história — agora com três vitórias e dois empates nos confrontos entre as equipes.
Com a eliminação, a seleção brasileira chega à maior fila de títulos mundiais desde a conquista inaugural de 1958. O penta foi em 2002, no Japão, com Ronaldo, Rivaldo e companhia batendo a Alemanha por 2 a 0 na final de Yokohama — são 24 anos sem erguer a taça, e o próximo ciclo só se fecha na Copa de 2030.
2. Uma década de frustrações: 2014, 2018, 2022 e agora 2026
O tropeço diante dos noruegueses não é um raio em céu azul — é a continuidade de um padrão que se arrasta desde o desastre de 2014, quando o Brasil, jogando em casa, levou 7 a 1 da Alemanha na semifinal (era Felipão o treinador). De lá para cá, a seleção não passou de quartas de final em nenhuma Copa:
- 2018 (Rússia) — eliminada nas quartas pela Bélgica, sob o comando de Tite, em uma partida em que o time criou pouco e sofreu contra-ataques.
- 2022 (Catar) — eliminada nas quartas pela Croácia, novamente com Tite, em disputa de pênaltis após empate no tempo normal — a mesma Croácia que seguiria surpreendendo no torneio.
- 2026 (EUA) — eliminada já nas oitavas pela Noruega, a queda mais precoce em 36 anos, agora sob Ancelotti.
O recorte não fica restrito às Copas do Mundo: na Copa América de 2024, o Brasil também caiu nas quartas de final, diante do Uruguai, nos pênaltis. Ou seja, em nenhuma das últimas quatro grandes competições de seleções o Brasil chegou sequer a uma semifinal — um retrospecto que contrasta duramente com a tradição do futebol brasileiro e que vem alimentando, a cada edição, o debate sobre gestão, base de jogadores e modelo de jogo.
3. Avaliação do elenco: do gol ao ataque
Alisson (goleiro). Chegou à sua terceira Copa consecutiva como titular absoluto, tornando-se o goleiro brasileiro com mais participações em Mundiais nessa condição, ao lado de nomes como Taffarel e Gylmar. A campanha começou mal: a seleção sofreu gols em todos os quatro amistosos de preparação, incluindo três nos dois últimos jogos antes do torneio, o que gerou cobranças sobre a solidez defensiva. Ainda assim, o goleiro do Liverpool teve boas atuações no início da fase de grupos — cinco defesas consideradas fundamentais somente nas duas primeiras partidas — e a equipe reagiu bem depois da estreia apagada contra o Marrocos, vencendo a Escócia por 3 a 0 na última rodada de grupos, já mais sólida defensivamente. Contra a Noruega, porém, ele nada pôde fazer nos dois gols de Haaland — o segundo, em especial, expôs a linha defensiva brasileira, aberta e sem cobertura em um contra-ataque decisivo.
Defesa. Foi o calcanhar de aquiles da campanha. Nomes como Alex Sandro, Danilo e Marquinhos, todos acima dos 33 anos, mostraram lentidão em situações de transição — exatamente o que a Noruega explorou no gol da classificação.
Meio-campo e ataque. Bruno Guimarães teve bom volume de jogo, mas errou o pênalti que poderia ter mudado a história do jogo contra a Noruega. Vinícius Júnior foi o nome mais desequilibrante do time ao longo do torneio, enquanto Endrick, ainda em fase de amadurecimento aos 19 anos, mostrou lampejos mas careceu de mais minutagem para se firmar como referência ofensiva.
Um ponto que resume o momento da seleção: nomes como Weverton (38 anos), Alisson (33), Ederson (32), Alex Sandro (35), Casemiro e Danilo (34) e Fabinho (32) dificilmente estarão no ciclo de 2030 — ou seja, a Copa de 2026 marcou, na prática, o fim de uma geração, sem que uma nova tenha se firmado no lugar dela.
4. Neymar era necessário? Qual foi a contribuição real
A convocação de Neymar foi um dos temas mais controversos da preparação. Ancelotti não o havia chamado nenhuma vez desde que assumiu a seleção, em maio de 2025, sempre condicionando a presença do camisa 10 à forma física. Neymar somava 11 lesões, duas cirurgias e mais de 800 dias afastado dos gramados entre as passagens por PSG, Al-Hilal e Santos, e a última vez que havia jogado pela seleção fora em 2023. Mesmo assim, a convocação foi amplamente pedida por jornalistas, ex-atletas e principalmente pelos próprios companheiros de seleção, além da maior parte da torcida.
O critério de Ancelotti era claro: com a maioria dos jogadores é preciso avaliar talento e condição física; com Neymar, apenas a condição física, já que o talento seria indiscutível. Na temporada, o retrospecto pelo Santos ajudou a sustentar a escolha: 13 partidas, seis gols e três assistências, com presença em campo por mais de 80 minutos em 12 dos 13 jogos — uma consistência física que não se via há tempos.
A contribuição em campo. Foi limitada em minutagem, mas decisiva no lance mais simbólico da eliminação: entrou no segundo tempo contra a Noruega e converteu o pênalti que reacendeu a esperança brasileira nos acréscimos. Foi também o gol que o consolidou ainda mais como o maior artilheiro da história da seleção, com 80 gols no total, somando 9 gols em quatro Copas do Mundo disputadas. Simbolicamente, a eliminação para a Noruega pode ter marcado a despedida de Neymar em Copas do Mundo, aos 34 anos.
Em resumo: sim, a convocação foi necessária do ponto de vista técnico e de liderança — o elenco carecia de um jogador capaz de decidir um pênalti sob pressão — mas o episódio também reforça um problema estrutural: o Brasil chegou a 2026 dependendo, mais uma vez, de um jogador de 34 anos, sem um sucessor natural plenamente consolidado no papel de armador/finalizador.
5. Os treinadores até Ancelotti
A trajetória recente da seleção ajuda a explicar a instabilidade:
- Tite — deixou o cargo em 2022, após a eliminação para a Croácia no Catar.
- Ramon Menezes — assumiu interinamente após a saída de Tite.
- Fernando Diniz — contratado de forma interina, acumulando a função com o comando do Fluminense, clube pelo qual foi campeão da Libertadores em 2023.
- Dorival Júnior — efetivado no cargo, campeão da Libertadores de 2022 pelo Flamengo antes de assumir a seleção; foi demitido em 28 de março de 2025, um mês após uma goleada sofrida para a Argentina.
- Carlo Ancelotti — anunciado pela CBF em 12 de maio de 2025, com contrato inicial de um ano e bônus de € 5 milhões em caso de título mundial.
O nome de Ancelotti já era o preferido da CBF havia pelo menos dois anos, desde meados de 2023, quando a entidade ainda estudava quem contratar no lugar de Tite — mas a permanência do italiano no Real Madrid e a renovação de contrato com o clube espanhol adiaram o acerto. A contratação também tem valor histórico: é a primeira vez que o Brasil aposta em um técnico europeu para liderar o time em uma Copa do Mundo, rompendo quase 60 anos sem um estrangeiro no comando da seleção masculina.
6. A passagem de Ancelotti nos últimos cinco anos
- 2021–2025 — Real Madrid. Chegou ao clube em julho de 2021, iniciando um dos ciclos mais vitoriosos de sua carreira: título espanhol e Champions League na temporada 2021/22, e nova Champions em 2023/24 — a quinta da carreira do treinador na competição, recorde histórico. Em dezembro de 2023, renovou contrato com o Real até junho de 2026, mesmo sendo especulado para a seleção brasileira. A queda de rendimento em 2024/25 — eliminação precoce na Champions e perda de terreno para o Barcelona no Espanhol — deixou o treinador em posição mais frágil no clube, que já projetava a chegada de Xabi Alonso como sucessor.
- Maio de 2025 — chegada ao Brasil. Assumiu a seleção em 12 de maio de 2025, estreou em 5 de junho contra o Equador (0 a 0) e venceu o primeiro jogo em 10 de junho, contra o Paraguai, resultado que geraria a classificação direta do Brasil para o Mundial.
- 2025 — Eliminatórias e amistosos. Comandou o Brasil em quatro jogos de eliminatórias, com dois triunfos, um empate e uma derrota, além de amistosos: vitórias sobre Chile (3 a 0) e Senegal (2 a 0), derrota para a Bolívia (1 a 0) e empate com a Tunísia (1 a 1).
- 2026 — Preparação final. Nos últimos testes antes da Copa, o Brasil venceu três de quatro jogos: perdeu para a França (2 a 1), venceu a Croácia (3 a 1), goleou o Panamá (6 a 2) e fez mais um amistoso antes da estreia no Mundial.
- Maio de 2026 — renovação. Mesmo antes da eliminação no Mundial, a CBF anunciou, em 14 de maio, a renovação de contrato com Ancelotti até 2030 — o que faz dele, hoje, o treinador de seleção mais bem pago do mundo, cerca de € 10 milhões por ano.
- Balanço até a Copa. Ao todo, somando eliminatórias e amistosos antes do Mundial, Ancelotti alcançou sete vitórias, três empates e duas derrotas à frente do Brasil.
Ou seja: a CBF já havia blindado o técnico contra qualquer instabilidade antes mesmo de a Copa começar — o que explica por que, mesmo após a eliminação nas oitavas, é improvável uma mudança de comando a curto prazo.
7. E se Ancelotti continuar: qual a expectativa tática?
Com contrato renovado até 2030, o italiano deve seguir no cargo — e aqui entra o ponto mais delicado da análise, considerando o perfil do treinador: historicamente pragmático, ele prioriza equilíbrio defensivo, blocos organizados e gestão de jogo em vez de um futebol de posse e pressão alta. É a marca registrada de sua carreira em grandes clubes europeus, sempre mais reativa que propositiva quando o adversário tem qualidade.
Aplicado à seleção, esse perfil sugere alguns caminhos prováveis para o próximo ciclo:
- Menos vertigem ofensiva, mais controle de espaços. É provável que Ancelotti mantenha uma equipe mais cautelosa, com linhas mais próximas e menor exposição em transições — o oposto do “futebol-arte” que a torcida historicamente cobra, mas coerente com o que o técnico aplicou em toda sua carreira.
- Renovação gradual, não uma ruptura. Nomes acima dos 33 anos (Alisson, Danilo, Alex Sandro, Casemiro, Fabinho) tendem a dar lugar, aos poucos, a jogadores mais jovens já testados neste ciclo, como Endrick, Estevão e Rayan — mas o estilo conservador do treinador sugere que essa transição será feita com cautela, sem apostas radicais de uma vez só, priorizando resultado a ousadia.
- Meio-campo como prioridade tática. É a característica mais marcante do trabalho de Ancelotti: equipes bem estruturadas no meio, com um volante de proteção fixo (papel que Casemiro ou um substituto direto deve ocupar) e variações de sistema (4-3-3 ou 4-4-2 losango) conforme o adversário — não um esquema fixo e ousado.
- Menor dependência de um “camisa 10” clássico. Ancelotti tende a distribuir funções criativas entre vários jogadores (como já fez com Vini Jr. e Neymar em papéis distintos) em vez de montar o time em torno de uma única estrela — o que deve acelerar o fim do ciclo de Neymar na seleção e abrir espaço de protagonismo para Vinícius Júnior e para a nova geração.
- Risco associado. O principal risco desse modelo é justamente a falta de ousadia diante de seleções organizadas defensivamente — como ficou evidente contra a Noruega, quando o Brasil teve dificuldade para furar um bloco baixo e sofreu em contra-ataque. Se a filosofia conservadora não vier acompanhada de jogadores rápidos e decisivos nos espaços, o time corre o risco de repetir o padrão de 2018, 2022 e 2026: eliminações em jogos truncados, decididos em detalhes.
Em resumo, a expectativa é de uma seleção mais organizada e menos vulnerável defensivamente a médio prazo, mas também menos espetacular — um projeto de resultado, não de encantamento, com renovação de elenco feita por etapas e não por ruptura. A pergunta que fica é se esse modelo, historicamente vitorioso em clubes europeus, é o suficiente para devolver ao Brasil o hexacampeonato que já dura 24 anos de espera.
